MAS, AFINAL, EXISTE UM JEITO CERTO DE AMAR?
- MICHELLE MKO
- há 16 horas
- 5 min de leitura
Já pararam para pensar como as pessoas demonstram o amor de maneiras diferentes? No texto deste mês vou trazer algumas perspectivas sobre as linguagens do amor para que possamos refletir sobre como se dá a dinâmica da construção dos afetos em nossas vidas.
Por Michelle MKO

Acho fascinante como se processam as relações humanas. Sempre gostei de observar a maneira como as pessoas interagem umas com as outras. Para embasar minhas reflexões, trago como referência o livro “As cinco linguagens do amor” de Gary Chapman. A leitura aborda essa temática que considero tão importante para nosso autoconhecimento e para uma reflexão importante sobre como construímos nossos afetos e nossos relacionamentos: o desejo de expressar o amor que sentimos uns pelos outros. Eu li este livro há alguns anos por indicação da minha psicóloga. O conteúdo me engrandeceu bastante, porque, sendo eu uma pessoa sensível e com uma dinâmica relacional rica em interações, eu acredito fortemente que compreender como comunicamos nossas emoções e como os outros as recepcionam pode contribuir muito para a construção de relações mais saudáveis e assertivas.
Confesso que, embora eu seja uma pessoa que sente muito, não conhecia essa teoria até minha psicóloga indicar a leitura deste livro. Ter aprendido sobre as linguagens do amor me ajudou a compreender as minhas linguagens e como as pessoas à minha volta também demonstram seus sentimentos. Gary Chapman, um especialista em relacionamentos estadunidense, cunhou a teoria de que existem cinco linguagens possíveis para se demonstrar o amor, sendo elas: Palavra de afirmação; Tempo de qualidade; Atos de serviço; Presentes e, por fim, Toque físico.
A primeira é a de “palavras de afirmação". Essa linguagem facilita a verbalização de elogios, agradecimentos e incentivos. Já repararam como existem pessoas que têm essa habilidade de, pelas palavras, tornar a interação mais rica e interessante? Pois é, essas pessoas têm essa linguagem de amor bem evidenciada. Acho que tenho essa linguagem de amor desenvolvida mais na parte escrita do que da fala, porque acho que me expresso melhor escrevendo do que falando. E mais do que escrever, consigo expressar melhor minhas emoções quando as coloco no papel ou numa tela, já quando falo, costumo titubear um pouco dependendo do meu interlocutor. É como se a concatenação de ideias e de emoções se desse de maneira mais organizada na escrita do que na fala, o que não deixa também de ser uma maneira de fazer um bom uso da linguagem “palavras de afirmação”.
A segunda linguagem do amor, a de “tempo de qualidade”, considero bem desafiadora nos tempos atuais porque está relacionada à dedicação da atenção plena e exclusiva a uma pessoa, sem se perder em distrações. Descobri que eu tenho essa linguagem bem evidenciada também, mas em tempos cujos telefones estão sempre nas mãos, poucos têm demonstrado esse tipo de habilidade porque raramente se concentram em algo ou alguém devido ao excesso de estímulo de telas e de ambiente. É como se a característica desejável socialmente de se ser proativo e de se ter múltiplos focos de atenção fosse na contramão desta linguagem. E o que presenciamos são cenas nas quais pessoas sentadas à mesa de um restaurante acompanhadas de seus parceiros e familiares se perdem nas interações ao telefone. Ou, em uma sala de espera de alguma consulta, por exemplo, as pessoas se concentram na interação virtual de múltiplas abas com dedos apressados em rolar a tela e não têm nenhuma interação com quem está no entorno.
A terceira, “atos de serviço", poderia ser encontrada em ações cotidianas que agradam o ser amado, geralmente associadas ao alívio de carga de trabalho. Então, aquela postura de dividir o peso, de assumir tarefas com as quais o parceiro não se identifica tanto para deixá-lo mais confortável é uma linguagem interessante de se expressar o amor. Descobri que também tenho essa linguagem de certa forma bem ativa, porque tenho uma disponibilidade grande para oferecer ajuda e assumir tarefas cotidianas, desde que eu me sinta confortável com elas também, claro. Por exemplo, sou péssima em matemática e cálculos, portanto, mesmo que eu tenha essa linguagem de atos de serviço bem evidenciada, não posso assumir numa relação a tarefa de cuidar das contas e das finanças do casal porque corro o risco de nos levar para o buraco. Em contrapartida, sou atenciosa, observadora e tenho boa tolerância a tarefas repetitivas, então posso oferecer serviços dessa natureza para minha namorada, por exemplo.
A quarta linguagem é a de dar “presentes". Eu amo presentear! Quer dizer que essa linguagem requer que se gaste dinheiro com presentes? Não necessariamente. Nessa linguagem a demonstração do amor acontece presenteando o ser amado com algo que seja simbólico e afetivo. Por exemplo, gosto de confeccionar presentes para pessoas que eu amo. Escrever uma poesia, desenhar ou criar uma arte para ela e, sim, também gosto de presentear com algo material que sei que a pessoa deseja muito. Sendo assim, essa linguagem do amor não mensura o sentimento pelo preço do objeto, mas pelo gesto de oferecê-lo.
Por fim, vem a quinta linguagem, que é a do “toque físico". Vocês já conheceram pessoas que não se sentem confortáveis com o contato corporal? Eu já. E é importante a gente conhecer e respeitar o limite do outro. Já outras pessoas, como eu, adoram esse tipo de contato. Eu sou suspeita em falar sobre essa linguagem de amor também porque amo abraçar, beijar, fazer carinho e sinto muito prazer tanto em receber quanto em oferecer estímulos táteis. Receber uma massagem nos pés após um dia cansativo de trabalho é revigorante para mim. Abraçar uma pessoa que compartilha um momento de vulnerabilidade é uma reação natural da minha parte, mas, aí me lembro de que nem todos se sentem confortáveis com esse tipo de contato e pergunto antes se posso lhe oferecer um abraço. Porque, às vezes, o que consideramos uma demonstração de afeto, pode ser recepcionado pelo outro como invasão e desrespeito, então precisamos estar atentos aos limites das pessoas com as quais interagimos.
E é interessante porque observo que às vezes a gente pode ter uma determinada linguagem de amor bem desenvolvida no trato com o outro, mas não saiba lidar com essa mesma linguagem quando vem deste mesmo outro. Por exemplo, eu amo presentear, mas fico bastante constrangida quando sou presenteada. Amo oferecer ajuda, mas quando me oferecem, dependendo da oferta do serviço, fico me sentindo desconfortável e quase me sentindo em dívida com o outro, como se tivesse dando trabalho. Estranho isso, né? Já as palavras de afirmação eu amo quando as recebo, bem como os contatos físicos. Sobre a linguagem do tempo de qualidade, acho essencial porque me sinto imensamente desconfortável quando a outra pessoa não sai do telefone ou não parece estar presente de corpo e alma durante uma interação.
Achei muito legal essa teoria das linguagens do amor porque consigo observar a partir dela como existem múltiplas maneiras de se demonstrar o amor. E entender que nem sempre o outro vai demonstrar da mesma maneira que nós foi uma percepção muito libertadora porque me permitiu ver que minha régua nem sempre será parâmetro para o outro. E vocês? Conseguem identificar quais são as linguagens de amor que vocês têm mais desenvolvidas? E quais as que mais gostam de perceber e receber daqueles que vocês amam? Depois dessa leitura, vocês acreditam que existe um jeito certo de amar?


