top of page

QUAL É O NOSSO GRITO DE HOJE: RELAÇÕES DE TRABALHO E A GREVE DOS PROFESSORES

Foto do escritor: TEREZINHA ARAÚJO
TEREZINHA ARAÚJO
há 23 horas
4 min de leitura

Nos últimos meses, falamos aqui sobre o burnout em suas diferentes vertentes, sobre o sofrimento que pode surgir, quando as exigências do trabalho ultrapassam os recursos que o trabalhador dispõe para enfrentá-las.


Mas a vida continua. A vida laboral segue. E, com ela, seguem também os encontros, desencontros, expectativas, frustrações e conflitos que fazem parte das relações humanas e das relações de trabalho.


É nesse contexto que gostaria de trazer uma questão que hoje está muito próxima de nós.


O que está acontecendo com as nossas relações de trabalho?


Em Belo Horizonte, a greve dos professores nos coloca diante dessa questão.


E não estamos falando de uma situação distante. Ela atravessa nossa cidade, nossas escolas, nossas famílias e nossos estudantes.


A poucos dias, professores da rede particular de Belo Horizonte decidiram entrar em greve por tempo indeterminado. 


A categoria e o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino estão em negociação para renovação da Convenção Coletiva de Trabalho, reivindicando a manutenção de conquistas previstas na CCT anterior, a preservação da unidade da categoria e reajuste salarial de acordo com INPC


Os professores rejeitaram a proposta do Sindicato Patronal de dividir a atual Convenção Coletiva em dois instrumentos, um para a educação básica e outro para o ensino superior, além de perdas de benefícios adquiridos. O sindicato patronal, por sua vez, sustenta a proposta de divisão como condição para o acordo. 


Vê-se que a greve não começou simplesmente porque os professores querem aumento salarial. O conflito envolve também a manutenção de direitos e a forma como as relações de trabalho são negociadas coletivamente.


A greve traz discussões para além dos aspectos jurídicos, sindicais e econômicos. Existe uma discussão sobre reconhecimento, valorização, direitos, segurança nas relações de trabalho e poder de negociação. Algo que nos interessa particularmente, enquanto estudiosos das relações de trabalho:


O que acontece com as pessoas quando uma relação de trabalho entra em crise?


Uma greve nunca envolve somente quem promove a paralisação, mas vários coletivos: 


Os professores têm suas reivindicações, além da busca por garantir a valorização de seu trabalho e reconhecimento como profissionais, trabalham com que há de mais significativo numa sociedade, a educação.


As escolas têm responsabilidades, interesses, a necessidade de administrar um conflito que envolve trabalhadores, famílias, estudantes e a própria continuidade da atividade educacional.


Os pais têm suas preocupações, com a rotina, com o trabalho, com a organização familiar e com a formação dos filhos.


Os alunos vivem os efeitos da paralisação, a interrupção de uma rotina que estrutura parte importante de suas vidas.


E todos estão ligados por uma mesma rede de relações.


E justamente por serem diferentes, não vivem a mesma experiência.


Todos estão implicados, mas não da mesma maneira.


Por isso o sofrimento nas relações de trabalho não pode ser compreendido apenas individualmente, está sempre inserido numa rede, e que neste caso ultrapassa os muros das instituições em litígio.


Quando o trabalhador não encontra reconhecimento, quando não consegue falar sobre aquilo que vive, quando sua experiência não encontra espaço de escuta, algo se rompe na relação com o trabalho. É quando essa experiência deixa de ser apenas individual e passa a ser compartilhada por um coletivo, por uma categoria e até por uma comunidade amplificada.


O grito se torna coletivo.


É possível pensar a greve não apenas como uma paralisação, nem como uma disputa entre interesses divergentes, mas como manifestação de que existe um conflito que precisa encontrar lugar para ser elaborado.


Significa reconhecer que existem diferentes sujeitos implicados e que cada um deles possui algo a dizer.


E talvez seja essa uma das contribuições que a Psicologia do Trabalho possa oferecer ao debate sobre conflitos do e no trabalho:  escutar o que o conflito revela.


O que os professores estão reivindicando?


O que as escolas estão vivendo?


O que os pais estão sentindo?


O que os alunos estão experimentando?


Que necessidades estão em jogo?


Que expectativas foram frustradas, quais são desejadas?


Que formas de reconhecimento estão sendo reivindicadas?


E, principalmente: que espaço existe para o diálogo?


A pergunta não é: “Quem está certo?”


O conflito não é destruidor de laços, ele revela aquilo que já não pode continuar sendo silenciado.


E então voltamos ao nosso ponto de partida.


Se o burnout pode ser compreendido, em muitas situações, como uma expressão do sofrimento no trabalho, a greve pode nos colocar diante de uma perspectiva diferente: o sofrimento encontrou uma forma coletiva de expressão.


Um sujeito sofre! Um grupo reconhece algo desse sofrimento em si mesmo!


A palavra circula! O conflito aparece!


Então surge a possibilidade, difícil, mas possível, de negociação, reconhecimento e transformação.


O grande desafio será conseguir sustentar as diferenças sem romper o laço.


Escutar o professor sem deixar de olhar para a escola.


Olhar para o aluno sem desconsiderar o professor.


Compreender a preocupação dos pais sem deslegitimar as reivindicações dos docentes.


Reconhecer as responsabilidades da escola, e seus representantes, sem esquecer que uma instituição também é feita de pessoas. 


Uma escola, uma instituição de ensino, é uma rede de relações, um modelo que será seguido por muitos.


E quando essa rede entra em tensão, todos são, de alguma maneira, convocados.


O grito se torna coletivo.


Estamos dispostos não apenas a gritar, mas a escutar?


Onde existe conflito, ainda existe relação, há enorme oportunidade de diálogo.


Há possibilidades de construir, criar, a partir da diferença, algo novo.


Um abraço,

Até breve.







Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação*
bottom of page