ROTA DOS SONHOS: DE MENINA À MULHER, O PERCURSO DA RUPTURA
- MICHELLE MKO

- há 19 horas
- 4 min de leitura

Estamos no mês de maio. Mês emblemático porque mexe com dois temas que interferem no imaginário social: a maternidade e o casamento. Mas, o que tais datas suscitam em nós? Vamos conversar um pouco sobre esses temas?
É muito comum meninas crescerem sonhando em se casarem e serem mães. A própria estrutura social já molda as meninas para isso, fazendo uma diferenciação dos brinquedos, por exemplo. Meninas ganham bonecas, jogos de chá, fogãozinho, geladeira e meninos ganham carrinhos, foguetes, bola e jogos.
Quando criança, eu detestava boneca e não gostava de brincar de casinha. Achava um tédio ter que simular tarefas domésticas. Gostava de subir em árvores, de me imaginar andando a cavalo ou pilotando carros de corrida. Até meus seis anos eu tive contato com meu padrinho. Todo Natal ele me dava uma boneca e eu ficava muito frustrada. Até que, aos seis anos, eu dei o grito e falei que não queria uma boneca. Pedi um velotrol em formato de moto. E ganhei! Fiquei muito feliz com meu presente! Me senti enxergada e valorizada pelo meu desejo! Coincidência ou não, nunca mais o vi. Disseram que ele se mudou de onde morava e que se casou. Ele era vizinho da minha avó materna. Fato é que entre o cheiro adocicado de rosas da boneca Chuquinha e o cheiro do plástico da minha moto eu preferia o perfume seco e industrializado do presente dos meus sonhos.
Nunca me imaginei casando. Via meninas da minha idade sonhando com o vestido de noiva, com o casamento, com o futuro marido e os futuros filhos. Uma das minhas irmãs, por exemplo, colava no caderno dela fotos de crianças imaginando que seriam seus filhos. E eu sonhava em estudar, viajar, andar de carro, de moto, de avião e minhas vontades eram muitas vezes ridicularizadas ou desestimuladas pela minha família, fosse pela escassez financeira incompatível com meus sonhos na época, fosse pela limitação social imposta equivocadamente ao gênero feminino. Aliás, muitas vezes, eu desejei ser um menino para que a vida me fosse mais fácil.
Eu achava a vida dos meninos muito mais atraente e sedutora do que a das meninas. Me lembro que adorava andar sem camisa. E ficava assim. Até hoje ainda curto, mas com mais restrições devido ao espaço e às companhias. Meu pai uma vez me falou isso: “filha, você é uma mocinha, não pode mais ficar andando sem camisa”. Eu devia ter uns dez anos, mais ou menos, e meus seios ainda nem estavam se formando. A partir dali, passei a ser controlada sobre isso, ele me permitiu pelo menos em casa ficar sem camisa, mas na rua me vestir. Assim o fiz.
Quando meus seios cresceram, aos 12, tive muita disforia e fiquei muito frustrada porque sabia que a partir daquele momento eu não poderia mais andar sem camisa. Na época eu gostava de correr, raramente eu andava e o crescimento dos seios me levou a um incômodo pelo peso e o volume com o movimento da corrida e com os homens que não escondiam o interesse em olhar para eles.
Usava camisas largas, não usava decotes e, ainda assim, era monitorada por olhares maliciosos de homens que se acham no direito de invadir corpos de meninas e de mulheres. Me lembro dos comentários, dos supostos esbarrões, dos movimentos nos ônibus cheios indo e vindo do trabalho. Sim, meu primeiro emprego foi aos 14 anos e eu já enfrentava a rotina pesada de pegar ônibus cheios e lidar com os abusos nos coletivos. Ficava pensando, como as meninas ainda querem se casar e ter filhos? Era algo muito distante do meu desejo porque eu sonhava com liberdade e isso me parecia ser incompatível com a condição de ser mulher casada neste nosso contexto social.
Em paralelo a isso tudo, eu também percebia interesse da minha parte por mulheres. Me sentia atraída por elas. Geralmente mulheres mais velhas, com posturas mais livres e decididas. Minha primeira paixão foi aos cinco anos pela atriz Marieta Severo na novela Vereda Tropical. Mas era algo sentido, não verbalizado, não compreendido.
Na adolescência eu comecei a perceber com mais clareza que eu sentia desejo por mulheres. Mas, vivendo sob a égide de uma sociedade de heterossexualidade compulsória, beijei alguns meninos, no entanto, era pelas mulheres que eu suspirava. E, sendo assim, eu não sonhava com casamento e nem com filhos, porque na época, não havia representatividade de relações homoafetivas entre mulheres.
Com minha primeira namorada, criamos um filho imaginário chamado Oswaldo, em homenagem ao artista que embalou tantos momentos da nossa intimidade, Oswaldo Montenegro. Mas, depois, isso se dissipou com o fim traumático da relação.
O fato é que acabei cedendo à expectativa social e me casei com um homem, fui mãe e depois me divorciei. Momento confuso e doloroso para mim, confesso.
Mas hoje, com a maturidade que eu tenho, entendo os processos, me acolho, agradeço por ter me tornado mãe de uma pessoa maravilhosa e posso dizer que mesmo com os desafios, tenho feito um bom trabalho com os recursos que eu tenho. E posso dizer que hoje consigo sonhar com o casamento, dessa vez com mulher, em um molde coerente com o que sou, com o que espero e desejo construir para minha vida. Um relacionamento saudável. Sem subterfúgios. Sem culpa. Sem dor. Com vontade legítima e ações cotidianas que venham tornar essa união possível.
Mas, a bem da verdade, antes de me pensar em um casamento com outra mulher, tenho investido em me casar comigo mesma, fazer meu compromisso comigo mesma, resgatando essências minhas que se perderam no meio do caminho, resgatar aquela menina ousada e destemida que em algum momento cedeu à pressão e se distanciou da rota dos seus próprios sonhos.
A partir dessa união comigo mesma, minha relação com minha namorada será muito mais coerente e verdadeira. Hoje celebro a ideia da união de duas mulheres fortes, embasada em amor, desejo, atitudes e companheirismo. E é interessante isso, porque aquela menina lá atrás que via no casamento o encerramento da liberdade e da realização dos sonhos, hoje não se sente ameaçada com a mulher que sou hoje e que sonha, sim, com o casamento, porque a configuração do casamento para mim, diz de um lugar de liberdade, de construção conjunta e realização dos sonhos. Houve uma ruptura do conceito que eu tinha de casamento e com essa ruptura a ideia de me casar se tornou palatável, desejável e sonhada.
Então, neste mês de maio, proponho uma leitura enviesada e bastante subjetiva da expectativa do casamento e da maternidade. Como é a sua? Quer compartilhar comigo?



Comentários