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AMOR EM TEMPOS DE HIPERTENSÃO

  • Foto do escritor: MICHELLE MKO
    MICHELLE MKO
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

No capitalismo, as datas passam a representar cifras: Natal, Dia das Mães, dos Pais e dos Namorados são algumas das oportunidades de transformar afeto em lucro. Mas, sem querer minimizar os danos desse manejo comercial, podemos falar de o quanto essas datas podem, de alguma maneira, levar algumas pessoas a sentirem permissão para demonstrarem o que sentem e hastearem a bandeira de seus amores?



Quem diz que o amor segue calendário? Não deveria ser tão desafiador falar e mostrar a partir de ações cotidianas o quanto se ama alguém. Geralmente, de maneira equivocada, esse tipo de demonstração pode ser interpretado por algumas pessoas como fraqueza, carência e excesso de sensibilidade. Com isso, muitos indivíduos vão se endurecendo ou simulando um endurecimento para sobreviverem no mercado de trabalho, cuja tendência é tentar alijar do trabalhador sua vida emocional. Sinto que tal comportamento leva a aumentar a superficialidade das relações, a ocultação das essências, das vulnerabilidades e das subjetividades.  


Correntes científicas - como a Psicanálise e a Medicina Psicossomática - tratam dessa relação direta entre emoções reprimidas e o adoecimento fisiológico. Na atualidade temos altos índices de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, obesidade, entre outras. Vivemos em um contexto histórico em que a atenção às emoções é desestimulada para não interferir na produção do trabalho. Somos seres sociais e precisamos da socialização, não somente a interação mecânica para a execução de tarefas. Por isso, percebo que, na esteira das datas abraçadas pelo comércio e pela sede de lucro, há também a oportunidade de revelação do sentir, do afeto e o alívio de não ter que fingir uma mecanicidade de atuação no mundo. É como se essas datas fossem uma espécie de autorização para se demonstrar emoções gravadas no calendário social. Pena que grande parte da sociedade ignore que expressar sentimentos é também investir em saúde. Portanto, demonstrar amor no cotidiano, longe de ser fraqueza, carência e excesso de sensibilidade, é na verdade, uma coragem necessária à manutenção da própria sanidade.


Na semana passada, véspera do Dia dos Namorados, observei uma cena que me tocou profundamente. Vi uma mulher andando na rua segurando uma sacola transparente repleta de balões inflados em formato de coração. Ela trazia em seu semblante leveza e alegria. Ela caminhava como se flutuasse pelo asfalto quente. Fiquei imaginando quanta expectativa ela carregava consigo... Como ela iria preparar o ambiente para receber quem ela ama? Talvez perfumasse a casa com um aromatizador romântico e afrodisíaco… Acendesse velas... Preparasse um prato saboroso… Escolheria a bebida que mais se adequasse à experiência gastronômica... Vestiria uma lingerie sensual e cuidaria de seu corpo com cremes e perfumes agradáveis... Selecionaria uma playlist com músicas especiais... Isso tudo eu deduzi num átimo de segundo, apenas observando a alegria que ela irradiava. E em seguida pensei: como seria bom se momentos como esses acontecessem com mais frequência! 


Gabriel García Márquez contou em seu clássico o “Amor em tempos de cólera” uma relação romântica da virada do século XX que aborda o amor, a espera para se viver esse sentimento e a velhice em paralelo com a epidemia de cólera, doença ambientada no enredo. Na trama, Fermina e Florentino, amantes da juventude, tiveram o amor interrompido após a interferência do pai da protagonista. Ela acabou se casando com o médico Juvenal. Florentino jurou amor eterno a ela, virou um executivo e até se envolveu com outras mulheres, mas seu coração permaneceu reservado ao amor por Fermina. Após 50 anos, com a morte de Juvenal, Florentino se declara à recém viúva e ela não reage bem. Depois ela acaba cedendo e eles iniciam um romance na maturidade. Para se libertarem do preconceito da sociedade, eles embarcam em um navio da companhia marítima de Florentino e ele pede a seus funcionários que a bandeira amarela, símbolo internacional de quarentena por cólera, seja hasteada para que ele e sua amada possam viver com privacidade e segurança o amor que eles nutriam um pelo outro após meio século de espera. 


Fiquei pensando: Quantos adoecimentos precisarão surgir para que as pessoas se sintam livres para expressarem seus afetos e emoções? Quantas bandeiras amarelas ou de outras cores precisarão ser hasteadas para que o amor possa se sobrepor à dor e ao adoecimento e ser vivido em paz e livre de julgamentos? Em tempos de hipertensão e outras doenças psicossomáticas, se entregar ao amor pode ser uma bandeira hasteada no cerne do direito de ser livre para amar, apesar do desestímulo da sociedade capitalista. E, assim, concluí: aquela mulher que eu vi andando na rua carregando balões de corações caminhava na vida hasteando com orgulho a sua bandeira do amor.










5 comentários

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Parabéns, Michele, muita verdade no que você diz. Bj

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há 2 dias

Viva o amor. "Façamos. Vamos amar"

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há 2 dias
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Que lindo!❤️❤️❤️

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há 2 dias
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Que lindo deve ter sido a visão dessa mulher carregando uma sacola cheia de corações, toda leve e solta, entregue ao amor romântico - esse amor que ilude as mulheres e faz com que elas se decepcionem com o amor.

Namastê!

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Chris
há 2 dias
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Interessante a conexão que a autora faz entre "as cóleras" (a doença e o sentimento), a história do livro, a cena da mulher carregando os corações e a infeliz necessidade de (ainda hoje!) ter que se levantar bandeiras para poder expressar livremente o amor. E tal intertextualidade reflete parte da personalidade MKO, moldada por uma história marcada pelo hasteamento de bandeiras nos múltiplos campos de batalha que a vida lhe apresentou. Bravo, Michelle!

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