AMOR É AMOR
Um olhar sobre a lesbianidade e o impacto da heterossexualidade compulsória e da homofobia internalizada na constituição do sentir.
Tenho dedicado especial atenção nas minhas últimas contribuições nesta coluna à temática de relacionamentos, sobretudo aos românticos. Passei pelas linguagens do amor, trazendo à tona as múltiplas maneiras de demonstração de afeto que se delineiam nas interações humanas; falei um pouco sobre os tipos de apego adquiridos na primeira infância e de como eles interferem na dinâmica relacional na vida adulta e, por fim, falei sobre um movimento observado em alguns grupos de mulheres que decidiram descentralizar suas vivências do amor romântico e aproveitarem mais outros tipos de afetos, como a amizade, por exemplo.
Para falar dessas temáticas, eu busquei me inteirar de leituras, pesquisas, conceitos e, principalmente, da minha própria trajetória de investigação do meu sentir e do meu interagir comigo mesma, com o mundo e com o outro. Acredito que, quando tratamos de algo que em alguma medida tenha sido vivenciado por nós, há uma maneira genuína de se abordar temáticas de grande impacto social sob a perspectiva da nossa própria subjetividade.
Sendo assim, pretendo neste mês abordar sobre o amor na perspectiva da lesbianidade, orientação sexual com a qual me identifico e que segue sendo pouco compreendida, ainda que discussões sobre temáticas LGBTQIAPN+ estejam em alguma medida ocupando espaços sociais.
Por Michelle MKO

Antes de entrar propriamente em conceitos, começo falando sobre meu sentir. Desde criança eu sentia uma profunda admiração por mulheres, sobretudo mulheres mais velhas. Gostava de conversar com elas, ouvir suas histórias e preferia esse tipo de interação do que brincar com crianças da minha idade. As primeiras lembranças que eu tenho de sentir uma atração diferente por mulheres foi com a atriz Marieta Severo, na novela Vereda Tropical. Nessa época eu tinha de quatro para cinco anos. A atriz interpretava a personagem Catarina e me lembro de gostar de ver sua atuação firme, com um certo ar de autoridade e empertigamento, sobretudo no figurino altivo de alfaiataria que ela usava.
Um tempo depois, me encantei pela Maitê Proença em seu papel de Dona Beija, uma cortesã que rompeu com as normas sociais do séc. XIX. Me lembro da admiração pelo figurino e de sua postura ousada, firme e sensual, sobretudo nos banhos nas cachoeiras. É importante ressaltar que ali naquela época, eu com 4 a 6 anos, sentia esse interesse e essa admiração, mas não tinha elementos suficientes para tratá-los e reconhecê-los sob a perspectiva de uma compreensão de orientação sexual. Sentia interesse e admiração, achava que isso era absolutamente natural - e é - e compartilhado por todas as pessoas.
À medida que fui crescendo, imersa que estava em uma família sem representatividade de orientações sexuais disruptivas, fui construindo o que Adrienne Rich - poeta e teórica feminista estadunidense de relevância nos anos 1980 - classificou como “heterossexualidade compulsória”. De maneira bem superficial, resumo o termo como o argumento de que a heterossexualidade funciona como uma instituição política que subordina as mulheres e apaga a existência de relações entre elas. Mas, paradoxalmente, eu não me imaginava casando de vestido branco, véu e grinalda. Me imaginava estudando muito, sendo independente, dirigindo carro, pilotando moto e andando à cavalo.
Por vezes, me identificava mais com as brincadeiras ditas de meninos do que com as ditas de meninas, não por uma possível transexualidade - compreendo isso hoje, mas já tive dúvida em alguns momentos -, mas por apreciar posturas e papéis sociais que, na nossa sociedade, são comumente associados aos homens, restando às mulheres o imaginário de cuidar da casa e dos filhos. Eu, aliás, nem sequer sonhava em ser mãe porque nesse escopo eu interpretava uma vida de anulação e de dedicação com o qual não me sentia nada confortável. Esses questionamentos eram muito latentes em mim e aconteciam de maneira natural, mesmo que à época eu não tivesse repertório linguístico e conceitual para traduzir a consciência da minha própria sexualidade.
Isso tudo me levou, ao longo do meu desenvolvimento, a uma profunda incompreensão quando ouvia ou presenciava comentários ou posturas homofóbicas ou transfóbicas. Me causava tristeza e indignação. Não fazia sentido para mim esse incômodo alheio e essa hostilidade com o diferente. Muito cedo, eu defendia a liberdade e a diversidade, mesmo sem nunca ter efetivamente vivenciado alguma relação, fosse ela hétero ou homossexual.
Aos catorze anos, foi a primeira vez em que compreendi que aquele meu interesse por mulheres, antes centralizado em figuras distantes como personagens de novelas, filmes, livros, atrizes e cantoras, estava chegando às mulheres com as quais eu convivia. E foi com essa idade que me declarei a uma mulher pela primeira vez. Na época, uma mulher mais velha que eu, e minha professora de Língua Portuguesa, a Maria Regina. Me lembro que pedi para conversar com ela no final da aula e ela atendeu a esse meu pedido porque me considerava boa aluna e admirava meus textos e poesias.
Iniciei a conversa perguntando o que era estar apaixonado. Ela sorriu e descreveu as sensações que uma pessoa tem ao se sentir apaixonada por alguém. Eu a escutei com atenção e ao final dei meu parecer: é isso mesmo que eu sinto por você. E descrevi o que sentia por ela e de como ao ler poesias, ouvir músicas eu pensava nela e em mim.
Evidentemente, ela se assustou e se esquivou, trazendo a ideia de que eu estava equivocada, de que não era isso, que o que eu sentia por ela era uma admiração puramente profissional. Não era, mas respeitei o posicionamento dela e não a abordei mais nesse sentido. Assim, fui deslocando meu interesse por mulheres novamente ao espaço da admiração distante, quase inatingível. Cheguei a ficar com alguns meninos, só beijos, mas não me sentia inebriada como me sentia pelas mulheres.
Aos 16 novamente me vi apaixonada por outras mulheres. Regina, outra professora de Língua Portuguesa, e uma outra amiga mais velha. Me declarei para ambas e novamente elas me disseram que eu estava confundindo as coisas, que eu era muito nova e sem experiência e que não era possível haver nada entre nós. É claro que eu entendo que elas, além de serem surpreendidas pela minha declaração, estavam se preservando, afinal eu era menor. Novamente voltei para o universo pouco tangível do meu imaginário e criei uma personagem, Mahara D’Ângelo, jornalista, 26 anos, livre para amar pessoas, independentemente de a qual gênero elas pertencessem e que descrevia o seu maior apreço pelas mulheres. Nesse mesmo período namorei um rapaz, gostava dele, mas quando tive, aos 18 anos, minha primeira experiência íntima com ele foi absolutamente insípida. Fiquei chocada e acabei terminando com ele por esse e por outros motivos.
Em seguida, me apaixonei novamente por uma mulher onze anos mais velha e que nunca tinha estado com outra mulher também. Foi uma paixão deliciosa e nos envolvemos profundamente. Ali me encontrei. Essa era a idealização de prazer que eu sempre tive e que se concretizou de maneira absolutamente natural em mim. Ao compartilhar minha alegria e meu encontro comigo mesma na esfera da sexualidade com minha mãe, ela não lidou bem com a notícia e foi muito dura e violenta nas palavras comigo.
Infelizmente esse é um fenômeno comum a muitas pessoas elegebetês que acabam sendo rechaçadas, agredidas e, às vezes, até banidas de seus lares. Meninas trans são expulsas de casa aos 13 anos; 82% das mulheres travestis e trans são expulsas do ensino médio; e 90% delas estão na prostituição, segundo dados apurados em 2023 por Júlia Rodrigues do Fórum de ONGs LGBT do Maranhão. Esses dados são levantados por organizações e grupos independentes porque sequer são contemplados pelo censo do IBGE.
Segundo outra pesquisa realizada em 2020 pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) da Prefeitura de São Paulo, 63% dos jovens de 18 a 25 anos, relatam sentir rejeição total ou parcial dos familiares após se assumirem. Dados reiterados em outro levantamento de 2024, do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC) de São Paulo, no qual se apurou que 29% das pessoas trans e não binárias deixam suas casas antes dos 15 anos por causa da rejeição familiar.
Dados de órgãos oficiais que registram crimes e violências, comprovam que o Brasil é o país que mais mata pessoas transexuais e travestis no mundo. Ele chega a superar até mesmo países em que a homossexualidade e a transexualidade são consideradas crimes passíveis de prisão ou pena de morte. A expectativa de vida de uma pessoa trans em nosso país é a metade da média nacional, ou seja, apenas 35 anos.
Com tantos dados estarrecedores, falar de amor entre mulheres e de respeito à diversidade ultrapassa a esfera da beleza do sentir e passa a ser uma necessidade de discussão de políticas afirmativas de combate ao preconceito e às violências de gênero e de orientação sexual. Aquela menina ali, que na mais tenra idade sentia de maneira genuína admiração e frisson por mulheres, precisou lutar muito para não sufocar seus sentimentos diante da intolerância de uma sociedade que se alicerça em valores enrijecidos que não contemplam a diversidade do sentir e do existir.
Cheguei, uma época da minha vida, sofrendo pela rejeição e pelo preconceito, a me desviar da rota da minha autenticidade e da minha essência de sentir e amar. As dores foram gigantes, aprendi com elas, me tornei mãe aos 20 anos e felizmente retracei a rota e fiz do meu sentir e do meu afeto, o meu destino final. Ao longo do percurso houve medo e tristeza, mas a certeza de ser leal a mim mesma me levou a avançar em direção à minha essência.
Fico pensando: e quantas outras crianças, outros jovens e adultos que nem ao menos se permitem sentir o que sentem, se veem compelidos a reconhecerem a heterossexualidade como a norma e a combaterem a diversidade sexual com violência? Isso nos leva a outro conceito, o de homofobia ou transfobia internalizada. Para a Dra. Aline Rangel, psiquiatra especialista em sexualidade humana pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a homofobia internalizada acontece quando ideias negativas aprendidas socialmente sobre a homossexualidade passam a influenciar a maneira como uma pessoa percebe a si mesma.
David Cecy e outros pesquisadores publicaram na Revista Brasileira de Geografia Médica e da Saúde, de Uberlândia, em 2024, um estudo de análise da relação entre homofobia internalizada e saúde mental. As pesquisas que eles fizeram demonstraram uma conexão direta entre a homofobia internalizada e casos de adoecimento mental. Os pesquisadores concluíram que laços afetivos e relações familiares são essenciais para a saúde mental. Eles observaram que sintomas de ansiedade, depressão e ideação suicida são mais comuns entre os membros da comunidade LGBTQIAPN+. Outro ponto observado no estudo deles é que as dificuldades de socialização e de convivência devido aos ambientes hostis contribuem para a baixa autoestima e o consequente agravamento da saúde mental.
Quando nos deliciarmos com poesias de Ana Cristina César, Safo ou Emily Dickinson, quando apreciarmos músicas de Ângela Rô Rô, Adriana Calcanhoto ou Zélia Duncan, quando admirarmos trabalhos de mulheres que imprimem seus olhares lésbicos nas múltiplas artes ao longo dos séculos, lembremos que por trás dessas manifestações culturais ecoam gritos de resistência, afagos nas que se sentem desoladas e invisibilizadas e esperança de que um dia a sociedade entenda que amor é amor, puro e simplesmente. Se você tem alguém próximo a você que se identifica como uma pessoa LGBTQIAPN+, estenda sua mão e seu coração para ela porque a única coisa que ela quer na vida é amar e ser amada. Não deixe que seu ódio e sua intolerância ceifem vidas e sonhos.
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Referências
ALMA PRETA. Quase metade da violência contra pessoas LGBTQIA+ ocorre dentro de casa. Disponível em https://almapreta.com.br/sessao/cotidiano/quase-metade-da-violencia-contra-pessoas-lgbtqia-ocorre-dentro-de-casa/. Acesso em 29 Out.2026
CECY, David William Pinheiro; ANTUNES, Maria Cristina; WANDERBROOCKE, Ana Claudia Nunes de Souza. HOMOFOBIA INTERNALIZADA E SAÚDE MENTAL: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA. Hygeia - Revista Brasileira de Geografia Médica e da Saúde, Uberlândia, v. 20, p. e2074, 2024. DOI: 10.14393/Hygeia2071254. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/hygeia/article/view/71254. Acesso em: 29 out. 2026.
DINIZ, José Luiz. MPMA realiza debate sobre abordagem policial da população LGBTQIA+. Disponível em https://www.mpma.mp.br/mpma-realiza-debate-sobre-abordagem-policial-da-populacao-lgbtqia/ Acesso em 29 out.2026.
RANGEL, Aline. Homofobia internalizada: o que é e como lidar? Disponível em https://apsiquiatra.com.br/homofobia-internalizada-como-lidar/. Acesso em 29 out.2026.
RICH, Adrienne. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. *Tradução: Carlos Guilherme do Valle Professor do Departamento de Antropologia da UFRN Doutor em Antropologia pela Universidade de Londres. Tradução a partir do original: RICH, Adrienne. Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence. In: GELP, Barbara C. & GELP, Albert (editores). Adrienne Rich's Poetry and Prose. New York/London: W.W. Norton & Company, 1993.
TERRA. Rejeitados pela família e expulsos de casa: essa é a realidade de muitos jovens que pertencem à comunidade LGBT. Disponível em https://www.terra.com.br/noticias/dino/rejeitados-pela-familia-e-expulsos-de-casa-essa-e-a-realidade-de-muitos-jovens-que-pertencem-a-comunidade-lgbt,b8739fb9a31ba6f8bfaefa5a1322ebe9f9wkzrwt.html?utm_source=clipboard.
Acesso em 29 out.2026




A alma não tem sexo. Quando a gente ama, ama a pessoa que o outro é e não o corpo que o outro tem.
Acredito que a humanidade está caminhando para esse entendimento, por isso, casal tradicional homem/mulher anda desaparecendo. Você já percebeu isso?
Namastê!