BURNOUT E O TRABALHO CONTEMPORÂNEO
- TEREZINHA ARAÚJO

- há 9 horas
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Na próxima semana farei uma palestra sobre Burnout e estudando e pesquisando mais sobre o tema, me deparei com dados atuais alarmantes.
A relação do homem com o trabalho em nossos dias está cada dia mais adoecida.
Nas sociedades antigas e medievais, a identidade das pessoas era construída a partir da família, da religião, da comunidade ou da posição social. O trabalho existia, mas não ocupava necessariamente o centro da vida subjetiva.
A centralidade do trabalho começa a se consolidar principalmente a partir da Revolução Industrial, entre os séculos XVIII e XIX, e torna-se uma das principais experiências por meio das quais o sujeito constrói sua subjetividade. Mais do que uma atividade econômica destinada à obtenção de renda, o trabalho é um espaço de produção de sentidos, relações, identidades e reconhecimento social, e também saúde mental.
Século XX: a identidade profissional
Entre as décadas de 1940 e 1990, o trabalho tornou-se um dos principais organizadores da identidade. As perguntas mais comuns para definir alguém passaram a ser: O que você faz?" "Qual é sua profissão?" "Onde você trabalha?"
Século XXI: a centralidade se intensifica
O trabalho torna-se ainda mais central.
Autores como Richard Sennett, Ricardo Antunes e Byung-Chul Han nos mostram que o trabalho passou a invadir a vida privada. O celular conecta o trabalhador 24 horas; o desempenho é cobrança permanente; o sujeito é estimulado a transformar-se em uma “você S/A; o sucesso profissional é frequentemente confundido com valor pessoal.
Mas quando o trabalho adoece, é a própria identidade do sujeito que entra em colapso.
O burnout é um dos principais fenômenos que expressam o sofrimento psíquico no trabalho, na contemporaneidade. Reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como uma síndrome relacionada ao contexto ocupacional, resultante do estresse crônico no trabalho não adequadamente administrado. Ele se caracteriza por três principais dimensões: exaustão física e emocional; distanciamento afetivo ou cinismo em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional.
Entre 2021 e 2025, os afastamentos por burnout cresceu mais de 800% no Brasil, passando de 823 para 7.595 casos respectivamente, reconhecidos pelo INSS.
A pesquisa "People at Work 2024", da ADP Research Institute, apontou que aproximadamente 67% dos trabalhadores brasileiros relatam vivenciar estresse continuamente, um dos índices mais altos do mundo.
Estudos nacionais indicam que entre 30% e 40% dos trabalhadores brasileiros apresentam sinais importantes de esgotamento ocupacional, especialmente em áreas como educação, saúde, segurança pública e atendimento ao público.
O Brasil figura ainda, frequentemente, entre os países com maiores índices de ansiedade e estresse ocupacional da América Latina.
A hiper conectividade também contribui para esse processo. Smartphones, aplicativos de mensagens e plataformas digitais prolongam a jornada de trabalho para além do espaço da organização. Muitos trabalhadores permanecem disponíveis durante finais de semana, férias e horários de descanso, reduzindo as oportunidades de recuperação física e emocional. Segundo Byung-Chul Han, vivemos em uma "sociedade do desempenho", na qual os indivíduos são permanentemente estimulados a produzir mais, superar limites e buscar alta performance.
Na perspectiva da Psicodinâmica do Trabalho, desenvolvida por Christophe Dejours, o sofrimento emerge quando o trabalhador encontra obstáculos para transformar as exigências do trabalho em experiências de realização e reconhecimento. Quando não existem espaços de cooperação, diálogo e valorização do esforço realizado, o sofrimento tende a se intensificar e pode evoluir para o adoecimento.
Diferentemente das sociedades disciplinares, em que havia uma imposição externa da produtividade, o trabalhador contemporâneo passa a cobrar de si mesmo resultados cada vez maiores. Nesse cenário, o sujeito torna-se simultaneamente explorador e explorado. E é aqui que a subjetividade é convocada.
O trabalho não produz apenas bens e serviços; ele também produz sujeitos. Ao mesmo tempo em que transforma o mundo, o trabalho transforma quem trabalha. A subjetividade do trabalhador contemporâneo é marcada por uma série de tensões e paradoxos. O trabalhador atual não chega às organizações apenas com competências técnicas. Ele leva consigo sua história, seus afetos, seus medos, seus desejos, suas fragilidades e suas expectativas de reconhecimento. Por isso, compreender o trabalhador apenas pelos indicadores de desempenho é insuficiente. É preciso escutá-lo como sujeito.
Como escutar esse trabalhador?
A escuta não significa apenas ouvir reclamações. Significa criar espaços nos quais o sujeito possa falar de sua experiência real de trabalho.
Escuta sem julgamento
Muitas vezes o trabalhador teme ser visto como fraco, incompetente ou descomprometido.
A escuta acolhedora
Procura-se compreender antes de avaliar.
Em vez de perguntar: "Por que você não conseguiu?"
Pergunta-se: “O que aconteceu para que isso se tornasse difícil?"
Escutar o sofrimento por trás da queixa
Às vezes a reclamação sobre um colega, uma meta ou um gestor, e pode estar escondendo sentimentos mais profundos, tais como: medo, frustração, solidão, sensação de injustiça ou falta de reconhecimento.
A escuta busca compreender o significado da fala.
O trabalhador contemporâneo não pede apenas melhores condições de trabalho. Ele pede para ser visto, escutado e reconhecido como sujeito, ou, como costuma inspirar a Psicodinâmica do Trabalho: “Cuidar da saúde mental no trabalho começa quando deixamos de enxergar apenas cargos, metas e resultados e passamos a enxergar pessoas”.
Embora Freud nunca tenha escrito literalmente que "amar e trabalhar sejam sinais de uma pessoa saudável", essa expressão resume uma ideia central de sua obra: a saúde psíquica envolve a capacidade de investir desejo tanto nos vínculos humanos quanto nas atividades que conectam o sujeito à realidade e à cultura.
Essa articulação é muito útil para discutir a atualidade do burnout, pois quando o trabalho deixa de ser espaço de criação, reconhecimento e sentido, ele pode deixar de sustentar a subjetividade e tornar-se fonte de sofrimento e adoecimento.



Muito oportuno e necessário o seu texto, Terezinha! No último dia 12 de maio, a Norma Regulamentadora Nº 1, conhecida como NR-1, que trata das "Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, foi revisada para inclusão da avaliação de riscos psicossociais. Isso significa que empresas são obrigadas a identificar, prevenir e gerenciar fatores que podem levar ao adoecimento mental — como estresse ocupacional, síndrome de Burnout, jornadas exaustivas e assédio moral. Eu trabalho em uma multinacional e sei como é a pressão por performance nesses ambientes, em contrapartida, estamos vivendo uma época de conscientização, um tanto quanto puxada pelas demandas da nova geração que chega ao mercado - isso daria um outro textão - mas é um começo. Que possamos…