CACHORRINHO CARAMELO


Ele era presença certa, quando caminhando, passava frente à porta de um depósito de material de construção, numa esquina entre duas avenidas.
Ele era um representante fiel da paz - carismático, com sua postura de lord observador. Transitasse por ele quem transitasse, permanecia sem representar perigo, mantendo a cabeça levemente erguida.
Passei por ele centenas de vezes e nunca parei, só lançava meu olhar admirador. Ele sentia, olhava de soslaio e cúmplices, dentro da nossa troca de olhares, uma comunicação harmoniosa e perfeita se cumpria.
Há uma canção cubana que diz:
“Há palavras que nunca saem, elas vivem entre o pulsar e a criação da memória...”
E, nessa dinâmica de não se expressar com palavras que, por uns 30 dias, mais ou menos, só ele compareceu - fui ausência naquela esquina. Quando voltei, não sei explicar, não senti falta dele ali.
Um dia, ao passar pela porta do estabelecimento, me deparei com uma funcionária e três clientes conversando, quando uma delas colocou as mãos na boca expressando “Ohhh!”
E escutei a funcionária dizer que havia sentindo a falta dele e alguém trouxe a notícia. Perguntaram se tinha sido de uma vez e ela respondeu que sim, foi na hora.
Nesse momento, o Cachorrinho Caramelo visitou minha mente e entendi que estava recebendo a notícia de que nunca mais iria ver aquele pequeno filosofo observador.
Entendi, porque quando comecei a caminhar, nesse dia, um pensamento se manifestou: não é verdade quando dizem que a vida se acaba, porque ela não se acaba, ela se apaga em nós.
Compreendi porque iniciei a caminhada pensando na existência das coisas, nas presenças vivas e, no quanto a vida continua em movimento com o seu processo de amanhecer e anoitecer todos os dias, independentemente da nossa presença.
E, novamente, versos de uma canção cubana exemplificam essa minha experiência:
“A forma do outro se concretiza
na ausência
e caminha dentro de nós.”
Respirei fundo, olhei para o céu, amanhã estava linda, o vento meio frio e as duas avenidas completamente em movimento.
E foi no contínuo movimento da vida, de forma linda e dócil que ele se imortalizou como Cachorrinho Caramelo, entre duas avenidas, dentro de mim.
Um caminhão da transportadora STRADA virou a esquina, enquanto eu lia, em sua lateral, Construindo Novos Caminhos.
Olhei para o céu azul e entendi todo o contexto que trouxe a mensagem sobre a falta do Cachorrinho Caramelo, para sempre naquela esquina.
E tudo que me resta, no AGORA, é ser grata ao Lord Caramelo, por me fazer entender sua ausência ali, por ter vindo se despedir de mim, dizendo que se encontra em novos caminhos.
Você, Caramelo, se tornou inesquecível naquela esquina e dentro de mim!
NAMASTÊ!



Lindo conto! Qual verdade faria a diferença? Assim como ele, somos nós. Lembra do conto sobre milhares de estrelas do mar na areia e o sol escaldante chegando? É uma pessoa solitária as devolvendo para o mar. Sofrer nos livros vira lenda e é bonito, mas na vida…
Bela crônica! Belo texto! Nada a acrescentar nem pontuar, além de parabenizar esse olhar sensível para o ser das coisas, na qual sua escrita consegue realizar bem. Isso, é uma faculdade belíssima!
O cachorrinhooo! Que lindo seu texto, Beth!
Ei, Beth! Lendo o seu texto percebi que há muita filosofia existencial nele, e resolvi comentar nesta linha. Seu texto é extremamente delicaddo, filosófico e poético, pois transforma a presença cotidiana de um cachorro em símbolo de paz e reflexão sobre a vida. Sua narrativa mostra como a ausência também pode ser presença, caminhando dentro de nós. O Caramelo se torna eterno na memória, imortalizado entre duas avenidas. É uma despedida que se converte em gratidão e aprendizado sobre o movimento contínuo da existência. Existência esta que é bendita e misteriosa.
Parabéns. Um abraço.
Que linda homenagem para o Caramelo!