DEPOIS DO ALMOÇO
- ANA BEATRIZ

- há 11 minutos
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Ela pousa o copo na mesa, o som se espalhou por toda a sala, deu um longo suspiro de satisfação. Comera toda a refeição, era uma vitória.
- Parabéns! Não deixou nem um grão.
O moço na outra ponta da mesa sorria, mas ela não compreendia o motivo de tal alegria.
- Você merece uma sobremesa. – Ele disse enquanto recolhia os pratos.
- Não quero comer mais nada. – Ela disse com voz firme.
- Mas tem aquela rapadura que a senhora ama.
- Detesto rapadura.
O moço levava os pratos para a pia enquanto cantarolava. Quanto tempo ele ficaria ali? Os dois mal se conheciam e eram forçados a conviver todo santo dia.
- Amanhã é um grande dia. – Ele diz enquanto trazia uma tigela com a rapadura.
- O que tem amanhã?
- O casamento da Paulina, lembra?
- Eu não vou em casamento de ninguém. – Resmunga.
- Ora, mas a Paulina faz questão que ter a senhora lá.
- Eu nem sei quem é essa Paulina, e nem quero saber.
O sorriso no rosto do moço se dissipa. Ele senta-se ao lado dela, começa a fatiar a rapadura pacientemente.
- A Paulina gosta muito da senhora.
- Mas eu não gosto dela, ué.
- Ela sempre te amou muito.
- Mas eu nunca vi essa mulher.
Ele para de fatiar, olha bem em seus olhos.
- É o casamento da sua filha. Você, como mãe dela, tem que estar lá.
Ele se ocupa em varrer as migalhas do doce. Ela olha para as próprias mãos, quase fecha os olhos.
- Minha mãe que planejou meu casamento. – Ela disse ao acaso. – Foi ela que chamou o padre, que preparou o almoço. Ela tinha as mãos grandes. Gostava quando ela mexia no meu cabelo. Eu falava o nome dela como se fosse um segredo bonito...
Ela arregala os olhos.
- Qual que era o nome?
- Nome de quem?
- Nome da mamãe.
Ela fecha os olhos com força.
- Joana, Conceição...
- O nome dela...
- Carlota, Irene.
- O nome era...
- Perpétua, Raimunda...
- Mãe! O nome dela era Maria!
Ela o encara assustada.
- Mãe, sou eu, João Pedro. Eu cuido da senhora.
Os dois se olham, ela desvia o rosto, uma lágrima desce. O tempo escorre.
- Que horas é o almoço? – Ela pergunta.
- Depois da rapadura.
Ela sorri e come o doce com alegria.



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