ETERNA PRIMAVERA
- JOSÉ FRANÇA

- há 9 horas
- 6 min de leitura

Era final de setembro. O ano eu já não me lembro bem. Mas faz muito tempo, porque eu ainda morava no bairro São Cosme em Santa Luzia. A data longínqua pode ser justificada pelo fato de que eu ainda não possuía carro.
Em uma tarde, eu saí de casa para ir ao centro de Belo Horizonte. O antigo ônibus vermelho gastava 1h10 mais ou menos para chegar à Praça da Estação onde ficava o ponto final da linha. Naquela época, a Avenida Antônio Carlos ainda não era alargada como hoje e as duas faixas (uma era exclusiva para os ônibus.) e, no final da tarde, uma fila imensa de coletivos era vista do alto como fosse uma gigantesca serpente que seguia lentamente rumo ao centro da capital mineira.
Eu estava em um desses ônibus e, durante o trajeto, lia o livro A paixão segundo GH, de Clarice Lispector. Mas assim que o veículo passou pelo Bairro São Francisco, teve início o sistema conhecido como “anda” e “para”. Após mais de uma hora, o ônibus ainda passava sobre o viaduto Antônio Carlos. Bem no meio do elevado, o trânsito parou de vez. Eu estava sentado do lado esquerdo da lotação. Já cansado da leitura, aproveitei a parada para descansar meus olhos das letras e, rapidamente, olhei em direção à Estação Rodoviária. O relógio marcava 6h da tarde. Ainda era um modelo antigo. Eu achei belo e estranho os dois ponteiros desenhando uma linha vertical. E em meio ao ruído dos motores e o barulho natural da rua, chegava da atmosfera as notas melodiosas da Ave Maria de Gounod.
Esta observação me fez lembrar uma fala de Walter Benjamin. O filosofo e sociólogo alemão disse uma vez que andar na cidade é como andar dentro de uma floresta. Na floresta, o caminhante não pode esquecer os pormenores. A atenção deve ser levada ao extremo, pois um mínimo detalhe que escapa, pode comprometer toda segurança da caminhada e os riscos podem desastrosos. De acordo com o pensador, a caminhada pela cidade também deve ser assim. Se o andante apenas ver (um ato passivo e automático de perceber com os olhos) e não olhar (um ato ativo, consciente e intencional, focado nas minúcias) perderá as belezas do ato de flanar, pois a rasura do ver não permite ultrapassar a pele ressecada do cotidiano e o que é maravilha pode se transformar em tédio.
Caetano Veloso, na música O estrangeiro, fala que Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara, que o compositor Cole Porter adorou as luzes da noite dela, enquanto o antropólogo Claude Lévi-Strauss a detestou, dizendo que a baía lhe pareceu uma boca banguela. O cantor baiano então escreveu os famosos versos: E eu menos a conhecera, mais a amara / Sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la estrela... Em A alma encantadora das ruas, João do Rio exalta a rua como um organismo vivo que revela a alma humana através das belezas do cotidiano, muitas vezes marginalizado. O olhar do flâneur capta o que é mais lindo, profundo e divino do banal, do anônimo, do corriqueiro e, democraticamente, compartilha com seus pares.
Mas foi neste momento que meus olhos cansados da leitura das páginas brancas da edição da obra clariciana (ainda não era comum o papel amarelado pólen natural 80g) presenciaram uma cena que poderei viver um século, que jamais me esquecerei. Uma cena que eternizou em mim, como uma tatuagem perfeita no meu cérebro, contrastando o elemento grotesco que é ficar em um ônibus parado sobre um viaduto às seis horas de uma tarde calorenta de início de primavera com o sublime de um evento humano que toca o divino pintando uma aquarela com os pincéis do criador.
Eu vi um casal de velhinhos sentados em um dos bancos do jardim suspenso do lado oeste da Rodoviária. Os dois estavam conversando. Eu conseguia vê-los, mas não podia ouvi-los, fato que me permite, aqui, distante no tempo e no espaço, usar uma fase clichê: os gestos falam mais que as palavras. Vi quando a mulher pegou uma sacola destas amarelas de lanchonete ou padaria e retirou dela, com calma, um pastel que poderia ser de carne, queijo, banana ou palmito.
Ela, gentilmente, cuidadosa, usando um guardanapo, pegou um pastel e o levou à boca do homem velhinho que, à distância, parecia ter os movimentos dos membros superiores limitados. Enquanto ele mastigava vagarosamente a massa recheada, ela levava o pastel à boca, mas com o braço enlaçado no dele. Os dois comiam como se estivessem dividindo o manjar dos deuses, a ambrosia ofertada no banquete dos eleitos. Era o ágape servido na mesa humana, mas que era belo e divino como a oferta de Abel, os sacrifícios de Abraão e os dons de Melquisedeque.
E quando o pastel acabou, a mulher se desvencilhou do braço vacilante do companheiro e levou a mão à sacola pegando outro e, repetindo o mesmo gesto, comeram dividindo, da mesma forma, o lanche das seis horas, a Santa Hora do Angelus. Só depois do segundo pastel, a mulher, antes de enlaçar o braço, pegou uma pequena garrafa de refrigerante, destampou-a e, cuidadosamente, levou-a à boca do companheiro e, logo em seguida, à sua. Os dois saboreavam o liquido após o alimento, ora para a degustação de um, ora para a degustação do outro. Era como se fosse uma nova comunhão humana, a oferenda do vinho e do pão. O ritual divino para saciar a sede da existência humana, mas com a beleza magistral do paraíso.
Dava para perceber a expressão de alegria do velhinho, um misto de sacio e felicidade. Os olhos, quase fechados, deveriam estar brilhando não só por ter recebido o alimento, uma iguaria simples, mas que, ali, ganhava a importância e a beleza dos banquetes dos mais renomados mestres da culinária universal. E, nela, o fruto do trigo e da videira era muito mais que se transformar em alimento sagrado para o corpo e santificado para a alma, pois vindo das mãos do ser amado, era como se fosse o leite materno, a dádiva divina, o pão da vida, o mistério da Eucaristia.
Tudo isso acontecia, enquanto o ônibus continuava parado, os passageiros chateados com a demora, incomodados com o calor e inquietos com falta de informação do que poderia ter acontecido. Seria um acidente? Um atropelamento? Uma manifestação na Praça Sete, ou mesmo alguma cena impactante com a de La La Land – Cantando estações, dança sobre o viaduto - que fez todos os motoristas pararem seus veículos para assisti-la? Não. Ninguém tinha a resposta.
Naquela época, não existiam celulares. As pessoas que não tinham o hábito de ler durante viagens, estavam privadas do escapismo da demora. Quem estava com livros, assim como eu, tinha sua atenção direcionada para a leitura o que tornava mais ameno o calor e a passagem das horas. Eu, que havia deixado o livro e estava preso à cena, não percebia o que estava acontecendo com os outros passageiros no interior do ônibus, muito menos o que havia acontecido que o trânsito parara.
A beleza continuava. A mulher – de longe dava para ver as mechas de cabelos brancos que avançavam para fora do lenço florido e desbotado – levou a mão de novo à bolsa e retirou um lenço branco, alvo como as toalhas que cobrem os altares para receber o cálice e a patena, objetos utilizados na liturgia solene da celebração. Ela, zelosamente, levou-o aos lábios do homem e limpou as partículas da massa ressecada que ficara presa nos cantos da boca do companheiro. Fez o gesto com calma o que me fazia lembrar a prática dos padres, após a comunhão, limpar a patena como uma pequena toalha e misturar com o vinho os minúsculos fragmentos das hóstias e beberem o líquido consagrado, em seguida.
Como que se repetisse os sacerdotes, após limpar bem os lábios do esposo, a mulher os beijou com carinho, bem levemente, por toda a extensão... era o penúltimo ato da celebração do amor. Após o longo beijo, ela balançou o lenço como se fosse um turíbulo, como se estivesse incensando toda a dimensão do banco que, ali, era mais que um simples móvel de um jardim de conhecido espaço público; era um altar em que, minutos antes, acontecera o ritual sagrado: ofertório, consagração e comunhão.
Do ônibus, eu não sentia em minha instância olfativa o perfume do incenso que purificou a nova ara, mas o sentia na alma, porque mais que uma fragrância, eu sabia que era o aroma do amor nascido da mais bela simplicidade, porque beleza não tem idade. Como se o alimento também fosse extraído do néctar das flores plantadas no jardim daqueles que vivem o amor como centelha divina... presente nos mais singelos gestos... mas santos e veneráveis.
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Que lindeza de descrição de uma cena tão romântica e sensível! Com certeza um bálsamo para os seus olhos no meio do caos do trânsito e da afobação do dia-a-dia. Gostei muito! Abraços, Carla Kirilos