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EU SÓ EXISTO NO OLHAR DO OUTRO!!!???

  • Foto do escritor: TEREZINHA ARAÚJO
    TEREZINHA ARAÚJO
  • 24 de mai.
  • 3 min de leitura

A gente só existe no olhar do outro” É o título do livro de Ana Suy e Christian Dunker (2025), e sendo um texto psicanalítico me chamou a atenção, comprei... mas antes de ler quero refletir com vocês sobre essa chamada, será que só existo no olhar do outro? O que isso significa?


A frase “a gente só existe no olhar do outro” parece simples, mas toca algo profundamente humano. 


Na psicanálise de Jacques Lacan, por exemplo, o sujeito se constitui a partir do olhar e da linguagem do outro. O bebê inicialmente se percebe fragmentado, e é na relação com a mãe ou com quem o cuida que ele começa a formar uma imagem de si mediada pelo olhar do outro. 


Um bebê sorri quando encontra o rosto da mãe. Uma criança procura aprovação ao mostrar um desenho. Um adolescente busca pertencimento no grupo. Um adulto sofre quando sente que não é percebido, amado ou reconhecido. E assim seguimos, eu me reconheço porque alguém me reconhece. Precisamos do encontro, do afeto, da palavra do outro.


Há algo em nós que pede testemunho da existência.


Mas isso também pode se tornar o aprisionamento contemporâneo: existir para ser visto, validar-se pela aprovação, depender do olhar externo para sentir que possui valor. 


Nas redes sociais isso aparece de forma intensa: curtidas, exposição, performance de felicidade, necessidade constante de reconhecimento. Uma questão fica sempre buscando resposta: “Se ninguém me vê, eu existo?”


Mas há uma diferença importante entre ser reconhecido e viver prisioneiro do reconhecimento.


Talvez uma das marcas do nosso tempo seja justamente essa dependência excessiva do olhar externo. As redes sociais potencializaram algo que já existia: a necessidade de ser visto para sentir que se existe. Publicamos momentos, opiniões, viagens, corpos, rotinas, conquistas, pois não basta viver, é preciso mostrar que se viveu.


E, passamos a medir nosso valor pela reação do outro: quantas curtidas, quantas visualizações, quantas respostas, quantas confirmações de que somos desejáveis, interessantes ou importantes.


O problema é que o olhar do outro pode acolher, mas também pode aprisionar, pode machucar.


Quando dependemos exclusivamente dele, começamos a nos afastar de nós mesmos. Vamos moldando nossa imagem para corresponder ao que parece aceitável, admirável ou consumível. Aos poucos, a vida vira performance. O sujeito deixa de perguntar “quem sou eu, qual o propósito para o meu existir, que sentido desejo dar a minha vida” para se perguntar “como devo aparecer?”.


Byung-Chul Han observa que vivemos em uma sociedade do desempenho e da exposição, onde tudo precisa ser mostrado, otimizado e validado. Nesse cenário, desaparecer do olhar do outro pode parecer uma forma de inexistência.


Mas será que existimos apenas quando somos vistos?


Talvez exista algo de muito íntimo e verdadeiro que só aparece justamente quando ninguém está olhando. Há desejos silenciosos, dores sem legenda, pensamentos que não cabem em stories, momentos de solidão que também nos constituem.


E talvez seja justamente aí que mora nossa singularidade.


Claro que ser visto importa. O reconhecimento tem potência afetiva. Todos nós precisamos, em alguma medida, de vínculos, escuta, amor e pertencimento. Há algo profundamente humano em querer ser percebido pelo outro. O problema começa quando desaparecemos dentro desse olhar. Quando deixamos de existir para nós mesmos.


Talvez amadurecer seja aprender a sustentar uma existência que não dependa da confirmação externa. Conseguir habitar momentos sem plateia. Descobrir quem somos também no silêncio, no intervalo, no invisível.


No secreto de nosso quarto, longe das vitrines sociais, talvez exista uma versão de nós que quase nunca mostramos. Uma versão sem filtros, sem personagens, sem a necessidade constante de parecer forte, feliz, produtivo ou interessante. No silêncio do quarto, quando as portas se fecham e os ruídos diminuem, algo mais verdadeiro pode emergir, nossa essência.


Ali aparecem nossas fragilidades, nossos medos, nossos pensamentos mais contraditórios, nossos cansaços. Ali também nascem pensamentos sinceros, sonhos guardados, afetos profundos, memórias que aquecem, desejos de recomeço. Ali podemos rir sozinhos, chorar sem justificativa, criar, imaginar, escrever, orar, amar, descansar. 


É curioso: o mesmo lugar que pode revelar nossas angústias também pode revelar nossa potência. Porque a intimidade não é apenas o espaço do sofrimento, ela também pode ser o espaço da criação, do desejo, do descanso e do reencontro consigo mesmo, com o propósito para que fomos criados em Deus.


Há uma beleza silenciosa em poder simplesmente ser. 


E você? 


Tem vivido para ser visto… ou para ser?


Talvez a questão não seja negar o olhar do outro, mas não desaparecer dentro dele.


A verdadeira liberdade começa quando conseguimos permanecer conosco mesmos, para ouvir a voz de Deus, sem precisar que a vida seja um espetáculo.








 


2 comentários

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Convidado:
27 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Li esta narrativa sobre o quanto nossa identidade e a nossa percepção de existência são moldadas pelas nossas relações sociais.

O quanto nos deixamos guiar pelo olhar do outro e o quanto nos perdemos.

Namastê!

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
24 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

É isso, Terezinha! Às vezes o olhar do outro serve para aliviar a ansiedade por aprovação e o medo de se reconhecer "apesar de", ao olhar para dentro de si quando se está só. Que o autoconhecimento não seja punitivo, mas que consigamos encontrar um alento ao reconhecer o nosso valor e as nossas virtudes. Abraços.

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