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O DIVINO ENTRE NÓS

  • Foto do escritor: JEFFERSON LIMA
    JEFFERSON LIMA
  • 17 de mai.
  • 6 min de leitura

“Se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar o seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ele nos deu este mandamento: quem ama a Deus, ame também o seu irmão.”

(I João, cap. 4 – Bíblia Sagrada)


Dia desses, passeando pelos stories de uma rede social, entre fotos, vídeos, frases e sei lá mais o quê – todos destinados a uma existência efêmera de vinte e quatro horas –, tropecei em uma frase que se impregnou em mim e me lançou numa espiral:


“Onde você viu Deus hoje?”


Meditando sobre a pergunta, revisitei o belo livro Perguntaram-me se acredito em Deus, de Rubem Alves:


“Muitas pessoas que jamais pronunciam o nome de Deus o conhecem como reverência pela vida. Deus nunca foi visto por ninguém. Ele se mostra na experiência da beleza. Ele mora no nosso mundo, passeia pelo jardim. Deus é beleza. E se ele ama o que é feio, é só para torná-lo belo... Por isso ele ama os desertos: porque neles se escondem fontes...”


Reconheço o milagre do Divino nos rostos que vejo ao longo dos dias, como também percebo sua presença na diversidade dos dons humanos ou, ainda, nos fenômenos naturais que, por mais que compreendamos seus fundamentos científicos, continuam a me espantar pela inexplicável beleza.


Mas é na caminhada comum que a fagulha do Criador vai se manifestando através dos dons de cada um. Não há um ser humano sequer que não tenha sido inflamado pela graça divina. 


Há os que nos encantam com seus talentos artísticos: criam canções que embalam e ressignificam momentos; escrevem poemas; retratam vivências em romances ora simples, ora complexos. Outros dão corpo às palavras nos palcos e fazem da cena o transbordar da própria essência.  Alguns, por serem introspectivos, deixam suas marcas em imagens – nas telas, nos muros, nas fotografias – ou capturam os movimentos por detrás das câmeras cinematográficas.


Também há aqueles que transbordam graça ao estender as mãos aos menos favorecidos: distribuem agasalhos e alimentos aos moradores de rua, fundam ou ajudam associações beneficentes, buscam soluções para as diversas aflições humanas. Muitas vezes, são pessoas anônimas, que transformam a vida daqueles que estão ao seu redor, na sua comunidade.


Num primeiro momento, é mais fácil pensar nessas manifestações que impactam multidões, mas há a arte que toca profunda e calorosamente às pessoas próximas, em um círculo mais íntimo – e, nem por isso, é menor.


Meu pai tinha o dom de construir jardins. Casas e prédios foram embelezados por seu talento de planejar o espaço, escolher as plantas e combiná-las de maneira harmônica. Ele dizia gostar de conversar com as plantas. Segundo ele, isso as tornava mais vistosas. Talvez fosse sua maneira de se aproximar do Sagrado — ou de si mesmo. Gosto de pensar que as plantas guardavam segredos que ele não dizia a ninguém; por isso floresciam mais belas. Sorriam do que ouviam.


Minha mãe fazia belos e delicados trabalhos em crochê – lenços e caminhos de mesa, nos mais variados estilos de pontos e combinações de cores. Hoje, senil, o crochê se resumiu a tecer as bordas de inúmeros panos de prato, com os quais presenteia a quem a visita. Mas o talento, que não a abandonou, agora se manifesta com ainda mais vivacidade no hábito incansável de colorir mandalas. Ela é capaz de harmonizar as cores de forma completamente instintiva, dispensando qualquer raciocínio mais complexo. Como saber o que vai em sua mente enquanto escolhe as cores para as mandalas ou a melhor linha para os panos de prato?  Essa capacidade está, de alguma forma, impregnada em sua alma desde que seus olhos brilharam neste mundo pela primeira vez.


“Deus não se revela a partir da grandeza, mas do que é insignificante. Se queremos aprender sobre o amor de Deus, devemos desviar nossos olhos do poder e focar no sorriso de um idoso, na fragilidade de um jovem abandonado. É aí que o amor de Deus se revela.”

(Padre Júlio Lancellotti)


Essas fagulhas familiares incendiaram os que vieram depois. Uma das minhas irmãs se enveredou pelos crochês e bordados de forma profissional. É impossível não se apaixonar pela beleza das peças feitas pelas mãos de Vânia.


Por outro lado, Sônia herdou – e não foi pouco. Do senhor Erondino, o gosto pelo cuidado com a terra e as plantas: tem a casa mais florida da família. Da dona Maria, carrega o talento para combinar as cores em trabalhos manuais, ora em papel, ora em tintas, ora em linhas, construindo mandalas, decorando garrafas, confeccionando painéis. De algum lugar ancestral, trouxe ainda o dom de ensinar, tendo sido educadora infantil durante toda a sua vida profissional.


Eu me enveredei um pouco pelos caminhos da música e vez ou outra me arrisco nas telas, mas pousei mesmo foi nesse emaranhado de letras e palavras, que teço no silêncio da madrugada, enquanto o dia amanhece, ao som de uma boa música e imerso em pensamentos nem sempre bem ordenados. A leitura, sempre incentivada por meus pais, que eram bons leitores – não dos clássicos da literatura, mas dos assuntos que os apeteciam: livros sobre saúde, textos bíblicos ou jornais, se tornou um hábito. Meu pai gostava de ouvir rádio, tanto as estações de notícias quanto de música sertaneja raiz; também assistia ao icônico Viola, Minha Viola, apresentado por Inezita Barroso.


Foi nesse terreno que germinou em mim o gosto pelas palavras. Em outra crônica, já contei sobre a coleção de Jorge Amado na estante do tio José. Talvez tenha vindo daí o meu encantamento quando, aos sete anos de idade, a professora, tia Vanda, nos conduziu à biblioteca da escola pela primeira vez.


E assim seguimos: desenvolvendo nossos dons, revelando — cada um à sua maneira — um fragmento do Divino que, ao encontrar o outro, abençoa e faz bem.


“Não procure Deus olhando para o céu. O procure em cada par de olhos, nas árvores, nas montanhas, em cada abraço e também nos animais. Como? Quando você enxerga Deus dentro de você mesmo, verá que é fácil o reconhecer em todos os lugares.”

(Sri Sri Ravi Shankar)


Retorno à pergunta que me instigou a escrever esta crônica, porém direcionada a mim mesmo: onde eu vi Deus hoje?


Será que consegui ver Deus ao olhar nos olhos dos que vivem comigo, logo pela manhã? Será que, ao dizer “bom dia”, transmiti um real desejo do meu coração para que o outro tenha um dia feliz, ou não passou de uma formalidade?


A criança no colo da mãe, que segue apressada, de repente me sorri. Como não sorrir de volta, ao ver Deus sorrindo para mim? Ao sentar-me para ouvir os causos dos velhos, talvez esteja a escutar o eco do sagrado verbalizando a sabedoria dos tempos por meio de uma voz já cansada, que está se esvaindo.


As pupilas brilhantes do olhar esperto da criança cheia de esperança e de vida pulsante, contrastam com o olhar acinzentado, cansado e longínquo dos velhos; ambos embebidos no mistério da existência – a euforia de quem chega e a contemplação de quem se despede. Em ambos os olhares está impressa a eternidade, a centelha divina que conduzirá cada vida ao seu destino. Na primeira, se manifestarão os dons e outras vidas possivelmente brotarão do amor que viver; na segunda, a contemplação rememora suas conquistas, suas desilusões e, quiçá, traz uma alegria serena de quem cumpriu sua missão e está pronto para partir em paz.


“Sejamos simples e calmos, como os regatos e as árvores,

e Deus amar-nos-á fazendo de nós belos como as árvores e os regatos,

e dar-nos-á verdor na sua primavera, e um rio aonde ir ter quando acabemos!...”

(Alberto Caeiro)


Quando foi a última vez que consegui identificar, no meu trajeto diário, a voz poética do Divino? Percebo sua assinatura na paleta que colore as manhãs e as tardes? Consigo voltar à criança que olhava para o céu e via Deus a brincar de formar bichos de algodão com as nuvens? O quanto ainda me impressiono com um arco-íris rompendo os cinquenta tons de cinza depois da chuva? É possível não perceber que a lua mudou de fase e que houve noites em que as estrelas estenderam um tapete de pontos brilhantes no céu? E quanto àquele vaso que no fim da tarde só tinha folhas e sorriu com uma flor pela manhã? Qual será o milagre da madrugada?


Os atos ritualísticos têm sua beleza e são capazes de silenciar o mundo exterior, nos conduzindo à essência, à calma tão necessária nesses tempos de ansiedade e cobrança por atuações cada vez mais impecáveis – mesmo sendo nós pecadores. No entanto, o meu desejo é que possamos identificar as manifestações do Divino na simplicidade do chão da vida, naqueles momentos em que tendemos a estar atarefados, ansiosos por desempenhar e sobreviver, mas somos surpreendidos com o Sagrado sorrindo e nos dizendo: Estou aqui. Calma! Respire! Relaxa! 


Por fim, confesso que, para mim, é impossível não sentir a manifestação do Sagrado quando presencio a apresentação de um belo coral. A maneira como as diversas vozes se entrelaçam em busca da perfeição numa canção é das coisas mais belas que conheço e que me fazem, por vezes, chorar. 


“Às vezes eu falo com Deus;

olho para o céu, leio um poema,

fecho os olhos e suspiro.”

(Jefferson Lima)






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22 comentários

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Michelle MKO
20 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Jefferson, meu amigo, que texto lindo e sensível! Em meio aos meus processos de ressignificação da minha espiritualidade me senti tocada pelas suas palavras e me lembrei de poemas de Álvaro de Campos descrevendo a beleza da natureza e de um trecho do filme O Carteiro e o Poeta, no qual Mario, o carteiro humilde da ilha italiana, grava o vento para enviar ao poeta Pablo Neruda depois que o poeta volta ao seu país de origem. Me lembro que achei tão lindo esse gesto porque sempre me encantei com o vento. Senti-lo me faz me lembrar de que há algo de sagrado na natureza. Me lembrei também de quando eu era bem criança, ainda engatinhando, me deitando no chão…

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
20 de mai.
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Michelle, seu olhar melhora muito o meu texto. Você citou um dos meus filmes preferidos da vida. Gosto tanto da história de O Carteiro e o Poeta, que tenho o livro em português e também em espanhol (Ardente Paciencia). Obrigado pelas palavras de carinho.

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Convidado:
20 de mai.

Texto muito sensível! Parabéns!

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
20 de mai.
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Obrigado pelo carinho da leitura!

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Beto Nicou
Beto Nicou
20 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Ao ler Jefferson, sinto que sua crônica é também um espelho. Ele fala dos dons herdados dos pais, e eu imediatamente penso nos meus. Meu pai, Senhor Wilson, analfabeto mas artista nato, moldava barro, madeira e música com uma sensibilidade rara. Minha mãe, super cuidadora, tinha asas de amor tão grandes que mal cabiam no mundo.

O que Jefferson chama de fagulhas familiares, eu reconheço como a forma mais pura do Divino: dons simples, mas eternos. A análise que faço é direta: o sagrado não se revela apenas na grandeza, mas naquilo que, sendo humano, transcende pela beleza e pelo cuidado.

Esse comentário é breve porque não precisa ser longo: basta dizer que, ao ler Jefferson, eu também vi Deus…

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
20 de mai.
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Que bonito, amigo poeta! Feliz pelo seu olhar nas entrelinhas dos meus rabiscos!

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Valéria
19 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Na simplicidade, e no emaranhado das palavras dessa crônica eu vi Deus hoje através do seu olhar Jeferson. Excelente texto. Grande abraço : Valéria Pires

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
19 de mai.
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Que alegria ler o seu comentário, Valéria! Que o seu olhar continue contemplando Deus na simplicidade da vida. Abraços!

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Convidado:
19 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

NAMASTÊ!

O Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você.

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
19 de mai.
Respondendo a

Namastê!

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