O BANQUETE DOS ELEITOS
- JOSÉ FRANÇA

- há 3 dias
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Este texto procura construir uma análise filosófico-religiosa sobre aqueles que nasceram e cresceram como todo mundo, mas, de repente, quando os que lhes eram próximos esperavam acontecimentos comuns, idênticos aos da maioria, surpreendentemente, abandonaram tais expectativas e se colocaram diante das injustiças humanas presentes no universo. Desprezaram o individualismo, abraçaram a alteridade e partiram em missão para fazer o bem, com o objetivo de edificar um mundo melhor, mais justo e compassivo.
Não se trata de exemplos isolados. A história ocidental, sobretudo a cristianizada, está repleta deles. São modelos de empatia. Pessoas que muito cedo despertaram em si a capacidade de sentir a dor do outro e perceberam que mais importante que a própria vida era mergulhar na realidade cruel e impactante. Enfrentaram cenários impiedosos, renunciaram às próprias existências para ajudar outros a viverem de forma mais digna, ou mesmo para salvá-los.
Francisco de Assis era filho de um nobre corrupto, grande mercador de tecidos, homem de índole desonesta, cuja riqueza proporcionou ao filho uma juventude inquieta e mundana. Mais tarde, ao ouvir o chamado e ter uma revelação, Francisco retirou materiais caros do pai e os doou para a reforma da igreja, sendo acusado de roubo. Então, renunciou à fortuna, despiu-se diante de todos e fugiu nu, passando a viver em condição de carência da qual nunca mais se retornou. Fundou a Ordem dos Franciscanos, movimento que buscava viver o Evangelho em sua totalidade, centrado na pobreza, fraternidade e na pregação do despojamento dos bens materiais.
No início do cristianismo, por volta do ano 251 , viveu um jovem que se tornou Santo Antão, conhecido como Santo Antônio do Deserto. Ao receber uma grande herança, vendeu tudo, repartiu o valor com os pobres e retirou-se para o deserto egípcio, dedicando sua vida à oração e penitência. É considerado o pai dos monges, pois inspirou comunidades que também receberam parte de sua herança e proteção.
Madre Teresa de Calcutá é talvez o símbolo mais conhecido de altruísmo no século XX. Poderia ter se casado, formado uma família ou seguido uma profissão, mas, ainda jovem, deixou sua cidade natal para trabalhar junto aos pobres e necessitados. Fundou a ordem das Missionárias da Caridade na Índia, dedicando décadas ao cuidado de pessoas com lepra, HIV/AIDS e doenças terminais que viviam nas ruas sem qualquer suporte. Para atendê-las, criou centros de acolhimento e lares para os moribundos.
Nelson Mandela, após passar 27 anos na prisão, emergiu não com sede de vingança, mas com foco inabalável na reconciliação. Abdicou de interesses pessoais para conduzir a África do Sul a uma transição pacífica rumo ao fim do Apartheid. Ao lado de Desmond Tutu, arcebispo sul-africano e voz moral incansável, lutou não apenas contra o racismo, mas também pelos direitos humanos, pela preservação ambiental e pela paz global, sempre pregando a filosofia Ubuntu: “Eu sou porque nós somos.”
Irena Sendler, durante a Segunda Guerra Mundial, arriscou a vida para contrabandear cerca de 2.500 crianças judias para fora do Gueto de Varsóvia, salvando-as do Holocausto. Escondia-as em ambulâncias, caixas e porões, fornecia documentos falsos e as abrigava em conventos e lares poloneses. Registrava seus nomes verdadeiros em papéis que enterrava em jarros, para que pudessem recuperar suas identidades após a guerra.
Irmã Dulce, Santa Dulce dos Pobres, conhecida como o “Anjo Bom da Bahia”, começou transformando um galinheiro em hospital improvisado. Sua obra cresceu e tornou-se um dos maiores complexos de saúde com atendimento totalmente gratuito do Brasil. Foi canonizada 27 anos após sua morte, ocorrida em 13 de março de 1992, sendo declarada santa pelo Papa Francisco em 13 de outubro de 2019. Tornou-se a primeira santa nascida no Brasil, com dois milagres reconhecidos pelo Vaticano que levaram à canonização.
Esses exemplos formam apenas uma pequena ilustração de uma lista imensa de pessoas que viveram o altruísmo em suas camadas mais profundas. Decisões como essas não pertencem a todo ser humano: “Como diz o velho chavão popular, não é para quem quer, é para quem é.” A graça de viver é dada aos escolhidos. A escolha é dom distribuído aos eleitos. O ágape, na visão cristã, é entendido como a expressão máxima do amor divino e da comunhão entre os prediletos de Deus.
Outros nomes poderiam ampliar essa lista: Joana d’Arc, Santa Clara, São Vicente de Paulo, Zilda Arns, São João de Deus, Santa Maria Egípcia — a freira que se prostituiu para alcançar a Terra Santa, mas declarou ao explorador que seu corpo, matéria efêmera e corrompível, poderia ser tomado, jamais sua alma, que pertencia somente a Cristo. Fora do cristianismo, destaca-se Siddhartha Gautama (Buda), que viveu até os 22 anos em palácio luxuoso, mas ao sair e ver a miséria do povo, revoltou-se, abandonou tudo e partiu em busca da iluminação.
Embora oriundos de contextos bem diferentes, muitas dessas figuras compartilham três pilares fundamentais. O primeiro é a empatia radical, um constructo psicológico complexo que gera a capacidade de sentir a dor do outro como se fosse sua. O segundo é a ação prática, que as leva não apenas a se comover, mas também a criar sistemas e movimentos para enfrentar os problemas. O terceiro é a persistência em realizar o bem: a efetivação não é um evento isolado, mas o trabalho de uma vida inteira, frequentemente marcado por resistência, grandes dificuldades e, em alguns casos, até pela entrega da própria vida.
O ágape simboliza não apenas uma refeição comunitária, mas sobretudo a vivência prática do amor que une os discípulos em Cristo, refletindo a eleição e unidade espiritual da Igreja. O termo grego significa amor que se doa sem esperar retorno, e foi justamente esse amor que os primeiros cristãos buscavam viver em suas reuniões, cuidando uns dos outros, sustentando os necessitados e testemunhando ao mundo a novidade do Evangelho. Essa prática inspirou todos os exemplos mencionados, mesmo aqueles que não pertencem a esse dogma de fé. Todas estas ações e provações são os anúncios da santidade.
A comunhão dos eleitos revela que a Igreja não é uma instituição fria, mas uma família espiritual escolhida por Deus, chamada a viver em santidade e verdade. Essa comunhão transcende barreiras sociais, culturais e geográficas, pois todos são unidos pelo mesmo Espírito e pelo mesmo Senhor. O ágape é a partilha do pão, a comunhão dos santos: os prediletos de Deus são convidados ao banquete das graças, participar da mesa do Senhor. A vida prática desses escolhidos é abrir o coração em hospitalidade, carregar os fardos uns dos outros e viver em missão, mostrando que o Reino de Deus já se manifesta entre todos.
Por isso é difícil compreender tamanha renúncia e despojamento dos nomes citados, pois já não vivem, é Cristo que vive neles. O ágape é mais do que rito ou tradição; é a marca da identidade cristã. É o testemunho de que os eleitos vivem em amor, e esse amor é a maior prova da presença de Cristo na comunidade. Quando a Igreja vive o ágape, torna-se sinal vivo da graça, revelando ao mundo que a verdadeira comunhão só é possível em Cristo, centro da unidade e da esperança eterna.
Essas pessoas não vieram ao mundo para ser felizes, ou para buscar a felicidade segundo o senso comum. Vieram com um propósito: mostrar que o Reino de Deus começa nesta dimensão terrena. Se houver outro reino além, ele é conquistado aqui. Suas escolhas foram respostas ao chamado divino. E ao atendê-lo, participaram da ambrosia, a especiaria divina dos escolhidos, a graça diante dos olhos de Deus. “Prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão.”



França, acredito que todos eles e todas elas conheciam o amor compassivo - aquele que simplesmente se doa, que se entrega na mais perfeita comunhão.
Namastê!
Fiquei muito feliz ao ler o seu texto, França! Lembrei as ações recentes do padre Júlio Lancellotti, que também vem dedicando a sua vida em favor dos oprimidos. Acredito que a cada geração novas vidas são tocadas de uma forma especial, abrindo mão do conforto e até mesmo das benesses herdadas em favor do próximo. Que bom que seja assim! Melhor ainda é quando nos sentimos constrangidos a ponto de nos sentirmos encorajados a olhar ao nosso redor e estender as mãos a quem precisa. Que assim seja!
Ah, José, que texto inspirador! Gosto particularmente de lembrar esses grandes seres que passam pelo mundo de tempos em tempos e provam que o improvável é possível. Superam qualquer barreira que se coloque à frente deles para impedi-los de fazer o bem. E o fazem a qualquer custo. Penso no que seria da humanidade sem eles. Obrigada por lembrá-los e perpetuar suas existências com suas palavras tão genialmente colocadas, e me aquecer o coração.
Parabéns pelo texto! Amei! 🌻