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BURNOUT E O TRABALHO CONTEMPORÂNEO II: PROBLEMA INDIVIDUAL OU ORGANIZACIONAL?

Foto do escritor: TEREZINHA ARAÚJO
TEREZINHA ARAÚJO
23 de jul.
4 min de leitura

Quando o desempenho substitui o sentido


Quando escrevi o primeiro texto, no mês passado, não pensei em fazer uma série, mas acho que o tema realmente não se esgota facilmente, então sigamos.


No primeiro texto, refletimos sobre como o trabalho passou a ocupar um lugar central na constituição da identidade humana. Vimos que, ao longo da modernidade, ele deixou de ser apenas uma atividade destinada à sobrevivência para tornar-se um dos principais espaços de construção de sentido, reconhecimento e pertencimento. Mas essa centralidade também trouxe um preço. Quando o trabalho deixa de ser fonte de realização e passa a ser um lugar de sofrimento permanente, não é apenas o desempenho profissional que é comprometido, é a própria subjetividade que entra em crise.


Talvez nunca tenhamos vivido um período em que trabalhar fosse tão valorizado e, ao mesmo tempo, tão desgastante. A tecnologia encurtou distâncias, acelerou processos e ampliou possibilidades de comunicação. Entretanto, também dissolveu as fronteiras entre vida profissional e vida pessoal. O expediente termina, mas as notificações continuam chegando. O descanso é interrompido por mensagens, reuniões virtuais e demandas urgentes. 


Essa realidade foi profundamente analisada pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, ao afirmar que vivemos na chamada sociedade do desempenho. Diferentemente das antigas sociedades disciplinares, nas quais o controle era exercido por normas rígidas e autoridades externas, hoje a cobrança está  internalizada. O sujeito acredita que escolhe livremente produzir mais, ser mais eficiente e superar continuamente seus próprios limites. O problema é que essa busca incessante por alta performance transforma o indivíduo em seu próprio algoz.


A frase "você consegue" parece motivadora, mas, quando gera uma obrigação permanente, torna-se extremamente violenta. O trabalhador passa a acreditar que qualquer limite representa incompetência, qualquer pausa significa perda de produtividade e qualquer fracasso revela falta de esforço. Nesse cenário, descansar gera culpa e desacelerar parece um risco.


Richard Sennett também chama atenção para outra característica do trabalho contemporâneo: a instabilidade. Em um mercado marcado por rápidas transformações tecnológicas, mudanças organizacionais e carreiras cada vez menos lineares, muitas pessoas convivem diariamente com a insegurança. A necessidade permanente de atualização produz a sensação de que nunca se sabe o suficiente, nunca se está bem preparado e nunca se fez o bastante.


No Brasil, o sociólogo Ricardo Antunes demonstra que esse cenário se agrava com a intensificação da precarização das relações de trabalho. A expansão de formas flexíveis de contratação, o crescimento da economia de plataformas e a crescente responsabilização individual pela própria carreira, deslocaram para o trabalhador riscos que antes eram compartilhados pelas organizações. Cada vez mais, o indivíduo precisa administrar sozinho sua empregabilidade, sua qualificação e sua estabilidade financeira.


Essas mudanças produzem um paradoxo curioso. Nunca se falou tanto em autonomia, protagonismo e liberdade profissional. Ao mesmo tempo, nunca houve tantos indicadores, metas, avaliações de desempenho e mecanismos de monitoramento. Em muitos contextos, o trabalhador sente-se livre para decidir, mas permanece aprisionado na busca incessante por resultados.


É nesse ambiente que o burnout encontra terreno fértil.


Muitas pessoas ainda acreditam que o burnout decorre simplesmente do excesso de trabalho. Embora a sobrecarga seja um fator importante, ela não explica o fenômeno por completo. 


A pesquisadora Christina Maslach, uma das maiores referências mundiais sobre o tema, demonstra que o adoecimento está fortemente relacionado à qualidade da relação entre o trabalhador e sua organização. Sobrecarga, falta de autonomia, ausência de reconhecimento, percepção de injustiça, conflitos de valores e relações interpessoais fragilizadas, constituem fatores que aumentam significativamente o risco de esgotamento.


A falta de Reconhecimento, conecta diretamente com a carência primordial do ser humano que é a necessidade de aprovação e de amor do outro semelhante.


Reconhecimento nesse contexto não significa apenas receber elogios ou recompensas financeiras. Significa perceber que o esforço realizado possui valor, que a inteligência empregada para resolver problemas é considerada e que existe espaço para cooperação, diálogo e construção coletiva. Quando esse reconhecimento desaparece, o sofrimento deixa de produzir crescimento e passa a produzir desgaste.


Essa perspectiva ajuda a compreender por que duas pessoas submetidas a cargas de trabalho semelhantes podem experimentar vivências completamente diferentes. Não é apenas a quantidade de trabalho que importa, mas a forma como ele é vivido, seu significado, seu contexto. Isso acontece porque o trabalho nunca é apenas um conjunto de tarefas objetivas. Ele é também uma experiência subjetiva. 


Esse é um dos pontos mais ricos da discussão sobre burnout, pois permite mostrar que o trabalho não atua sobre um sujeito abstrato, mas sobre uma pessoa singular, com uma história, desejos, conflitos e modos próprios de atribuir significado às experiências.


Talvez seja justamente essa uma das maiores marcas do burnout: e a mais difícil de ser trabalhada.


ESCUTAR O TRABALHADOR


Escutar o trabalhador significa reconhecer que, por trás de cada cargo, existe uma história. Atrás de cada meta, existe alguém que experimenta medos, expectativas, frustrações e desejos. Antes dos indicadores de desempenho, existem pessoas.


O adoecimento nasce justamente do encontro entre uma organização do trabalho que pode favorecer ou dificultar a saúde mental, e uma subjetividade que busca, continuamente, reconhecimento, pertencimento e sentido.


Talvez seja por isso que compreender o burnout exige ir além da simples contagem de horas trabalhadas ou da intensidade das demandas. É preciso perguntar: 


Qual lugar esse trabalho ocupa na vida dessa pessoa? 


O que ela espera encontrar nele? 


O que perdeu ao longo dessa trajetória? 


O que ainda consegue construir de sentido em sua atividade cotidiana?


Quando compreendemos isso, percebemos que prevenir o burnout não é apenas reduzir afastamentos ou melhorar indicadores organizacionais. É, sobretudo, reafirmar que o trabalho deve servir à vida, e nunca o contrário.


E é nesse encontro singular entre o mundo do trabalho e a história de cada indivíduo que se constitui a subjetividade. E é sobre essa dimensão, frequentemente invisível, mas decisiva para compreender o burnout, que refletiremos no próximo artigo.









 


3 comentários

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josé França
há 6 dias
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Olá, Terezinha! Seu texto reflete de forma crítica sobre o burnout, mostrando que ele não é apenas fruto do excesso de trabalho, mas também da relação entre indivíduo e organização. Ele estaca como a sociedade do desempenho internaliza cobranças, transformando o trabalhador em seu próprio algoz. A falta de reconhecimento e a precarização intensificam o sofrimento e fragilizam a subjetividade. A mensagem central é clara: o trabalho deve servir à vida, e não o contrário.

Gostei muito!

Parabéns! Um abraço.

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
27 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

A vigilância precisa ser constante. É normal, em nossos dias, sermos engolidos pelas demandas rotineiras. A competitividade e o culto à performance tão incentivado dentro das organizações, tendem a nos engolir. Daí a necessidade das pausas, o benefício dos hobbies para além das catracas, o esforço de se desconectar dos aparelhos para se conectar à vida e sobreviver. Lutemos!

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Convidado:
26 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Infelizmente, num mundo capitalista, ainda mergulhado em injustiça social, não existe espaço para as pessoas perguntarem o que esperam realizar no trabalho, porque quando percebem o esgotamento, já estão sendo engolidas pelo sistema.

Namastê!

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