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Incongruências: como sentir e agir em um mundo de urgência
Estava pensando sobre como muitas vezes incongruências nos atravessam. Ser uma pessoa sensível em um mundo cuja dessensibilização é incentivada para não se perder a produtividade é um desafio doloroso. Porque meu sentir pede vagareza, pede pausa, pede processamento. Mas a contemporaneidade tem uma urgência de respostas e de ações que escapam completamente ao meu fluxo natural de ser. Sentir tudo leva ao sentir nada. Porque quando o muito atravessa a alma, perde-se a essência


SILÊNCIO
No silêncio tudo se acalma, tudo se revela O silêncio transforma, ensina O silêncio conecta, cura… O silêncio decifra O silêncio desvenda O silêncio aquieta e atormenta Atormenta o ser que não sabe ouvir… que se amedronta ao sentir… Para sentir é preciso entregar… deixar fluir Silenciar é perder excessos… É se deixar levar sem o controlar É saber avaliar o que fica, e o que pode ir.. O silenciar é sábio. É simples É profundo Silenciar é ampliar… Silencie. Flua. Construa. Se d


HORIZONTE
Era uma quarta-feira: uma metade de laranja, o oposto do mundo, o avesso do estômago. Era quarta-feira, o centro de Belo Horizonte era monstruosamente harmônico, dentro da natureza das coisas. Em cada esquina uma vida pulsava, almas que no fundo vagavam meio sem rumo. Ela era apenas mais uma nesse compasso: baixa, cabelos pranchados, batom borrado e esmalte descascado. Segurava, além dos resultados dos exames, sacolas de coisas que mais tarde ela olharia sem saber o porquê co


ENTRE O ESPELHO E O ALGORITMO: QUANDO A ESTÉTICA DEIXA DE SER ESCOLHA?
Hoje fui a minha esteticista para procedimentos que faço sempre, a fim de manter minha pele bem tratada, cuidada, mas sem nenhum procedimento mais invasivo, pois, até aqui, não tem sido minha opção. Ela faz massagem, limpeza, estimulação de produção de colágeno, retira células mortas, enfim, dá uma manutenção básica. Enquanto estava ali deitada fiquei pensando em como é bom ter um tempo para desfrutar do cuidado do outro, de poder relaxar, gastar um tempo para me proporciona


DE ONDE NASCEM OS VERSOS
“O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.” (trecho de Autopsicografia – Fernando Pessoa) No mês de março, estive no 8º Festival de Arte Contemporânea Beagá Psiu Poético. O Psiu Poético, como ficou conhecido, é um festival que tem origem na cidade de Montes Claros e mobiliza artistas e leitores há quase quatro déc


ELAS SE VESTIRAM DE HOMENS NA LITERATURA
A literatura mexe nas feridas do mundo, como a existência difícil das mulheres num mundo que lhes é hostil, e que sempre se apresentou como um espaço inóspito. O tempo, representado por séculos e milênios, nunca deixou de ser bárbaro, selvagem e rude. Mas, ao invés de serem caladas, as mulheres usaram a inteligência, a criatividade, a sagacidade e a competência para responder à realidade e se colocar em atitude de protesto e resistência. Platão desenvolve, na sua obra univers


Sobre provas, casulos e a Páscoa
Hoje não trago uma fofoca literária. E explico por quê. Dentre as notícias que me impactaram nesse mês de março e foram muitas — guerras, chuvas pesadas, enchentes, etc. — a que mais mexeu comigo foi a do rapaz que teve a redação da Fuvest desclassificada e que virou meme na internet. Por que isso mexeu comigo? Talvez por ter acompanhado filhas e sobrinhos que passaram pelo tormento — mas necessário — do Enem, ou quem sabe porque fui professora por 32 anos e corretora do En


O SILÊNCIO QUE ILUMINA: ENTRE A ESPERA E A ESPERANÇA
Vivemos em um mundo que parece ter pavor do vácuo. Se há um minuto de silêncio, nós o preenchemos com o brilho azulado das telas; se há um espaço vazio na agenda, nós o ocupamos com uma produtividade que beira a exaustão. Na contemporaneidade, o ruído não é apenas sonoro, ele se tornou uma condição existencial, uma tentativa desesperada de provar que estamos vivas através da agitação. No entanto, hoje é dia 04 de abril, o Sábado de Aleluia, e o calendário da fé nos impõe uma


VULNERABILIDADE
Artista Criola / Bairro da Liberdade / São Paulo O ato de doar não pode ser inútil para você nem para o outro. Nele se realiza o que é seu e o que é do outro, porque entre o pedido e a aceitação, acontece a ação de pedir e de doar que envolvem sentimentos totalmente distintos. Essa reflexão surgiu depois de dois pedidos que foram feitos a mim, um pós saída de show e o outro em noite de confraternização - aquelas em que você está numa mesa, na calçada de um estabelecimento e
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