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É O CHEIRO!

  • Foto do escritor: JEFFERSON LIMA
    JEFFERSON LIMA
  • há 22 horas
  • 4 min de leitura


“Sei que a vida vale a pena...

mesmo que o pão seja caro e a liberdade, pequena...”


(Ferreira Gullar)


Dia desses, li a crônica Velhos Cocheiros, escrita por João do Rio, em 1908.


O narrador-personagem fala sobre uma conversa que teria travado com um velho cocheiro, que fazia ponto no antigo Largo do Paço, no Rio de Janeiro, e que já estava havia vinte anos na profissão. O Braga — esse era o nome do cocheiro — falava com saudosismo dos tempos da Monarquia, das pessoas importantes que conheceu, da diferença em relação aos tempos da República e, ainda, sobre a incapacidade de competir com os novos cocheiros, que tinham carros mais modernos e melhores que o seu.


O narrador assim descreve uma das falas de Braga:


 “Ele falava como um eco, e estava ali, olhando o boulevard reformado, pensando nos bons tempos das missas na catedral e das moradas reais, hoje ocupadas pela burocracia republicana...”


Mas não parou por aí. Em dado momento, Braga contou que ele não era o cocheiro mais antigo da praça, mas sim o Bamba, que ficava em outro ponto. Nosso personagem, então, encaminha-se para o local onde o tal Bamba estacionava o seu carro e, ao chegar lá, constata que aquele velho cocheiro não tinha qualquer condição de trabalhar. Ao questioná-lo sobre a razão de ainda insistir, tem a seguinte resposta:


“- Sei lá! É o cheiro, vossa senhoria, é o cheiro! Quando a gente começa nesta vida, não pode viver sem ela... É o cheiro.”


Na última semana de junho, fui convidado para participar de um momento inédito na empresa onde trabalho. No evento, batizado de Legado de Ouro, foram recebidos dezenas de antigos gestores que marcaram a história da empresa ao longo de mais de oito décadas de existência, para uma manhã festiva.


Para cada convidado, havia um anfitrião, função para a qual fui designado. A mim coube fazer as honras para um antigo gestor do Departamento de Qualidade. Há vinte e um anos, quando dei meus primeiros passos na empresa, ele estava se preparando para encerrar seu ciclo na vida laboral.

Como já me é característico, não criei grandes expectativas para o evento. Sabia que daria certo, por confiar na organização, mas pensava tratar-se de mais um evento corporativo sem grande relevância. Felizmente, estava enganado.


O que vi naquela sexta-feira foram homens e mulheres emocionados e felizes. Muitos foram os abraços, as lágrimas e as histórias rememoradas. Ouvir os casos contados durante o farto café e, depois, na roda de conversa no auditório, onde os microfones dançavam frenéticos de mão em mão, levou-me a refletir sobre como aquela geração valoriza o período vivido ali. E olhe que, quando digo "ouvir casos", entre mineiros que não se viam há muitos anos, não estou falando de alguns minutos – foram mais de três horas de uma boa "contação de histórias", que molharam os olhos, ora pelas gargalhadas, ora pelo choro de emoção.


O saudosismo contido na maioria das lembranças levou-me a rememorar a linda e emocionante canção Cidadão, escrita por Lúcio Barbosa e gravada por Zé Geraldo, no álbum Terceiro Mundo, de 1979, e posteriormente também interpretada por Zé Ramalho, no álbum Frevoador, de 1992. Ela reflete boa parte do que vi e vivi naquela gostosa manhã.


“Tá vendo aquele edifício, moço?

Ajudei a levantar. Foi um tempo de aflição,

era quatro condução, duas pra ir, duas pra voltar...

...

Lá eu quase me arrebento,

fiz a massa, pus cimento, ajudei a rebocar...

...

Enchi minha mão de calo, lá eu trabalhei também.

Lá foi que valeu a pena...” 


Aquelas pessoas que estavam sendo homenageadas por seus legados falavam sobre as vivências de seu tempo na empresa com a satisfação de quem trazia em si a consciência do dever cumprido; com a alegria de quem contribuiu para construir algo duradouro; com a certeza de quem sabia que, nos alicerces do que existe hoje, permanecem o seu suor e a sua digital.


“Aqui foi que valeu a pena...” 


É evidente que, por parte de alguns, o olhar para o passado trouxe uma nostalgia dolorosa, de quem gostaria que o tempo retrocedesse. Outros demonstraram estar bem resolvidos com o escorrer da areia na ampulheta da vida e desejaram a nós, que estamos no protagonismo das ações, sabedoria no presente, enquanto caminhamos em direção ao futuro.


Cá com os meus botões, penso: daqui a pouco, quando eu estiver no lugar dessas pessoas que ajudei a recepcionar, quero também olhar para trás com o sorriso de quem vive o novo estágio da vida desejando boa sorte a quem ocupou o seu lugar, sem qualquer desejo de permanecer estacionado ali.


“Um lugar deve existir, uma espécie de bazar, onde os sonhos extraviados vão parar...

Entre escadas que fogem dos pés e relógios que rodam pra trás...”

(A Moça do Sonho – Chico Buarque de Holanda)


Involuntariamente, entreguei-me a divagações sobre como tudo ganhou um novo sentido para a minha geração e como as coisas vêm sendo ressignificadas pelos que estão chegando. O sentimento de pertencimento parece estar se perdendo. Os da minha geração ainda costumam se emocionar com histórias assim. Muitos dos que chegam agora talvez as escutem de outro modo, como se o trabalho já não ocupasse o mesmo lugar na construção da identidade. É outra época, em que tudo é líquido, “escorre pelas mãos”, e as pessoas passam rapidamente pelos lugares, sem criar raízes. 


Próximo aos cinquenta anos, às vezes me pergunto se a juventude de hoje ainda experimentará o que é passar mais de uma década convivendo no mesmo espaço.


Isso é ruim? Talvez não...


“As coisas se transformam, e isso não é bom nem mal.”

(Por Brilho – Oswaldo Montenegro)










2 comentários

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Janette
há 18 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Linda oportunidade de empatia e reflexão! “Eu sou vc amanhã…”

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Convidado:
há 21 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Jefferson, quando escuto os amigos da época do meu pai, sinto no relato deles, o quanto era intensa e sincera a relação deles: “nunca vamos esquecer o seu pai! Ele foi um amigo valoroso, importante e querido, presente em tantos momentos das nossas vidas.

Nunca vou esquecer, quando pela primeira vez passaria o Natal fora de casa, ele ficou sabendo, foi me buscar e me encontrou chorando…”

Escuto histórias sobre a juventude dos meus pais que me encantam e me fazem perceber como tanta coisa mudou.

Namastê!

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