SOBRE-VIVÊNCIA

Atualizado: 30 de jul.

Vejo pessoas… por aí.
Vejo olhares, dores… e o sangrar.
Vejo vazios.
Vejo além do que a maioria pode.
Vejo tudo o que quero ver
E o que não quero.
Ao olhar. Mesmo quando nem quero olhar.
Vejo necessidades.
Vejo sensações.
Vejo expressões
E nelas, vejo falsidades.
Mesmo na ausência de animosidade, vejo raiva.
Vejo tristeza e alegria na mesma intensidade.
Vejo inconsistências.
Incapacidades, fraquezas, desconexões.
Enxergo desencontros… desalinhos.
Também vejo sinceridades.
Vejo belezas profundas e grandiosidade.
Vejo sentimentos.
Vejo pulsar, aquecer e esfriar.
Em cada movimento, ao chegar e ao sair.
Tom das palavras, comportamentos.
Leio e interpreto.
Desde quando? Desde sempre.
Com o tempo, aprendi a não demonstrar tanto, a fingir não ver.
Desviar o olhar. Desperceber.
Fingir ignorar para sobreviver.
Foi preciso.
E me tornei muito boa nisso.
Tão boa, que quem olha, subestima.



Esse ato de fingir não ver me trouxe Fernando Pessoa que dizia sobre o fingimento do poeta: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.” Os mecanismos de defesa e de sobrevivência que precisamos criar ao longo da vida são surpreendentes, né?
Oi Rúbia, tive a mesma sensação do França. Esperava prosa como é seu costume e veio um poema. E confesso que sua escrita em poema é muito melhor e mais elegante. Você descreveu o verdadeiro sentido das vivências, os sinônimos e os antônimos. Feliz de quem sabe discernir, proteger e se comportar diante das diferenças de sentimentos. Mesmo querendo, a gente não sabe como mudar. A vivência em grupos é necessária, mesmo deparando com dores e tristezas que não podemos mudar. Baktin dizia, "O ser humano é um ser socialmente dependente."
Um olhar aguçado, sensível e consciente para as relações humanas, quando acompanhado de sabedoria nas ações, faz toda a diferença! Belo versejar, Rúbia!
Frente à manifestação das pessoas aos processos da vida, se proteger foi a escolha possível.
Namastê!
Olá, Rubia! Eu estava esperando um texto em prosa, mas veio uma poesia linda. Percebi que ela revela uma sensibilidade aguçada diante das expressões humanas. Você descreve a maneira como enxerga tanto dores e falsidades quanto sinceridades e belezas profundas. Essa percepção intensa, porém, exige de você o ato de “fingir não ver” para sobreviver emocionalmente. É uma reflexão sobre a necessidade de se proteger diante da complexidade dos sentimentos e das contradições que permeiam as relações humanas. E por falar em relação humana, você é ótima nisso. Tantos textos lindos você já escreveu sobre este tema.
Parabéns! Um grande abraço.